Saturday, January 14, 2012

Entrou naquele sítio improvável numa tarde de inverno, recomendado por um amigo. Estava um nevoeiro frio e claro, como se quase a desfazer-se pelo sol que, àquela hora, já procurava o seu horizonte.
Foi recebida por um senhor velho, pouco simpático, que a fez esperar dezenas de minutos até chamar a pessoa que lhe iria resolver o problema. Assim que o fez, o rapaz em questão, deslocou-se do seu escritório transparente e dirigiu-se a ela, de mão esticada e sorriso tímido.
Feitas as queixas, o rapaz levou o seu aparelho informático para uma sala própria, igualmente envidraçada, onde permaneceu, inteiramente dedicado à sua tarefa, durante uma hora, sem dar quaisquer explicações à dona que, inquieta e curiosa, fazia várias vezes o perímetro do espaço exterior procurando, uma e outra vez, espreitar o que com  tanto afinco, o técnico estudava no seu aparelho. Enfadada com a espera, sentou-se num banco solitário, ajeitando-lhe a posição de modo a poder observar, fixamente, o procedimento. 
Após algum tempo, mais do que ela teria preferido, o técnico ergueu os olhos e encontrou os da rapariga. Meio sem jeito, coçando a cabeça, introduzindo as mãos nos bolsos, saiu da sala, caminhou em direcção a ela e, removendo uma mão do bolso, esticou-a para ela sem quase levantar os olhos, num gesto que pedia que ela o acompanhasse.
A porta fechou-se e, sentados frente a frente, o rapaz explicou-lhe todos os problemas que encontrou, dissertou sobre as possíveis causas, analisou, em termos de custos e benefícios, as alternativas do reparo. A conversa foi longa, muitas perguntas e respostas intercaladas de ambas as partes, algumas graças e sorrisos, num tema que ambos consideraram ser despropositado para as horas de conversa que não conseguiam evitar. A jovem, mais serena, escutava com doçura as explicações sem o ouvir, logo desde os primeiros minutos. Pensava para si, como iria ser o primeiro beijo, corando disfarçadamente, gostava do seu olhar meigo, a voz gentil, e transportava-os para uma noite, após ambos os dias de trabalho em que deitariam lado a lado, entrelaçando os dedos, a contar os pormenores do tempo que tinham passado ausentes um ao outro, acariciando os cabelos do outro. Imaginava onde iam viver, que casa iriam escolher para serem felizes os dois, um quintal, várias plantas, flores viçosas, uma sala morna, lareira à frente da qual se aconchegarem, a cozinha onde lhe prepararia pequenos agrados, quais seriam os seus pratos favoritos, escutava-o ao longe e só pensava em segurar-lhe a  mão, roubar para si aquele rapaz de jeito doce que, levemente, lhe aquecia o peito e lhe embevecia a atenção. 
Quando já não havia absolutamente mais nada que um pudesse dizer ao outro sobre o tema supérfluo que os tinha juntado, apertaram as mãos. As mãos demoravam-se, resistiam ao afastamento inevitável. O sorriso que os olhos da rapariga deixaram escapar disse-lhe em silêncio, escolhi-te para mim. 
Ao sair daquele espaço, ela estava feliz, resplandecente. Ainda sabendo que não mais o voltaria a ver.

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