Todas as sextas-feiras são um recomeço, o primeiro dia da minha vida. Sem querer, sem saber, sem me aperceber, fui adoptado num seio familiar de um conjunto de três mulheres ímpares. É curiosa a improbabilidade da vida. O modo que ela teve de me fazer sorrir quando conseguia apenas chorar. Um choro seco e abafado do qual me vou esquecendo. Um bocadinho mais amanhã do que hoje.
São todas muito diferentes, e cada uma consegue proporcionar-me sentimentos e emoções distintos.
Uma delas ensinou-me o desprendimento com que eu tenho de me encarar; que a vida é para se viver sem grandes complicações e que não se condenam os ímpetos da carne. A festa tem de existir sempre dentro de mim e a noite é o local e o tempo de a partilhar.
A segunda amizade não é totalmente desprendida. Há qualquer coisa na sua expressão que me atrai e tenho uma curiosidade inquietante de a beijar, de a fazer minha. Nem que apenas só por uma noite. Passamos o tempo a trocar piropos, lisonjeios e vontades reprimidas. Ela não sabe o que quer. Aparentemente, nada de mim. Mas a minha falta de atenção é sentida em reacções contraditórias e desesperadas para voltar a recuperar o controlo. O poder que acredita ter sobre mim. Às vezes deixo-a crer que sim. Na maior parte das vezes sou repelido pela sua insegurança e infantilidade. Mas fez-me falta acreditar que estava apaixonado e que podia estar em linha recta para sentir algo de magnífico. E ela estava ali tão acessível..
A terceira faz-me pensar e falar. Abrimos todo o jogo um com o outro e falamos de afectos como se não doessem. Mas doem. E mesmo assim, usamos o nosso tempo a escalpelizados, a purgar-nos um ao outro das cores escuras com que nos vestimos, de vez em quando. É uma terapia empática que funciona e que nutrimos com carinho.
Gosto de fazer o exercício de tentar antecipar os homens por quem estas minhas companheiras se sentem atraídas.
Na última noite observei-as, no expoente doloso da minha sobriedade. E ela, após vários episódios de ausência - não física - espiritual - cheguei a questionar-me por onde andaria a brilhar a luz que já lhe conheço - ela estava lá, atenta, de olhos bem abertos, usando o seu sorriso interior - já percebo quando este sorriso vem ou não da alma - libertando os seus movimentos, leves e esguios à música. Percebi exactamente o momento em que ela o viu. Por entre vultos transpirados, expressões vidradas e danças auto-frenéticas, avistou-o, sorridente, exibindo a sua confiança pela pose, firmemente suportando uma bebida, menos pesada do que parecia. Mas foi o seu olhar doce e fugidio, e a mistura de sensações que características tão contraditórias lhe suscitaram, que a magnetizou. Nesses minutos, que mais demoraram horas, não conseguiu fixar-se em mais nada. Ele não presta, disse-lhe, eu sei, porque eu já não prestei muito. Sensibilizou-me o desapontamento com perdeu o brilho dos olhos, teria ela expectativas naquele estranho? Tens a certeza, inquiria-me, que raiva, revoltava-se, mas discretamente, voltava a procurar o olhar do estranho. Fi-la atravessar-se no seu caminho, o mar de gente que libertava fumo, álcool e transpiração, que apertava, e empurrava e pisava, e dançava todo ao mesmo ritmo, empurraram-na para ele. As suas costas no peito dele. Observei os movimentos dele, eu já o conhecia. Ela espreitava-o por sobre o seu ombro direito, o mesmo ombro do qual ele procurou sentir o cheiro, desviando, com dois dedos, os cabelos dela, respirando o pedaço de pele que o seu cabelo descobriu. As suas mãos tocaram-se. Ela fechou os olhos e quis deixar-se levar. Mas a música voltou a soar, as pessoas reapareceram e a oportunidade perdeu-se.
Ao abandonarmos aquele sítio, tivemos uma conversa afásica, sem palavras e que demorou o tempo dela dar o último golo no seu copo semi vazio.
O que eu ouvi foi, eu não quero saber que ele não preste, não quero deitar fora esta sensação, este calor doce da silhueta dele a centímetros da minha, quero morder o beijo dele, sincronizar os dois peitos, ser absorvida nos seus olhos, ser desenhada pelas suas mãos, quero mergulhar no seu corpo, sentir o seu cabelo entre os meus dedos, deixar que a minha pele se pronuncie sobre a dele. Quero isto que estou a sentir, quero esta paixão, viver esta noite, a imensa possibilidade de tudo o que pode ser, mesmo sabendo que não será nada mais para além desta noite. Durante todo o tempo que me for dado para o descobrir.
Engoliu um trago da cerveja já morta, e quando vestiu a última manga do casaco, desistiu daquela imensa possibilidade.
Foi apenas mais uma noite. Em que tudo nasceu e morreu em poucas horas. Até que chegue a próxima noite. E com ela, inúmeras oportunidades de nos apaixonarmos.
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