Friday, January 6, 2012

Em queda livre

Chego à beira de um precipício. É noite, está escuro. Uma neblina branca adensa-se sob a minha visão. Nada me faz antever a altura a que estou do solo.. o que quer que esteja lá em baixo. Lanço uma pedra. Liberto-a das minhas mãos. Ela paira diante de mim, como que a desdenhar do que eu procuro descobrir. Vagueia, e desce, lentamente, como uma pena que a gravidade não consegue combater. Abano a cabeça, olho para os meus pés e sorrio. Subitamente entendo a situação em que me encontro.
Há uma emoção que se intensifica dentro de mim. Cresce e cresce e ganha importância. Porque tenho um pensamento fixo na cabeça. Uma voz que me diz mais do que qualquer outra. Um tremor nas pernas quando ele se aproxima.  Um rubor nas faces quando o sinto olhar-me. Um desejo imenso que o tempo voe, desde o último minuto em que estive com ele, até ao milésimo de segundo anterior àquele em que o vou voltar a ver. O peito agita-se e não sei o que fazer das minhas mãos. 
Será que tenho essa coragem? A um passo. O salto para o desconhecido. Não. Volto para trás. Estaciono, imóvel, desvio o cabelo dos meus olhos e sinto um arrepio que percorre a minha pele. Olho para o meu ombro direito. E nele desliza a sua mão, percorrendo o comprimento do meu braço, quedando-se na minha mão.. e lá permanece, firme. Os seus dedos enrolam-se nos meus e dirigem-se novamente ao precipício. Os seus olhos sorriem-me e pedem-me para respirar fundo.
 
"Sustem a respiração, vamos lançar-nos em queda livre!"

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