Tuesday, January 10, 2012

O meu tempo

Amanhã, penso eu empurrando as obrigações com a barriga, vou àquele sítio chato, onde tenho de desbravar caminho, entre tantas pessoas ferozes que querem o mesmo que eu, talvez com um bocadinho mais de convicção, vou procurar o que preciso, resolver o assunto, riscar essa linha da "to do" list, avançar para a próxima, coisa que já só poderei fazer no dia a seguir. Porque não tenho tempo, nunca tenho, que as minhas horas custam dinheiro a alguém, nem para visitar a amiga de guerras tão antigas, ver o filho dela, e a segunda criança que nasceu há pouco tempo e para a qual nunca tive tempo (já passaram seis meses). Salta o próximo item gritando pela minha atenção, outra amiga, quase tão antiga, está grávida, e que luta tão violenta  dirigiu ela contra as probabilidades, preciso lá ir, celebrar essa vitória, tilintar os copos, dar um gole num qualquer líquido não alcoólico, porque ela não pode, e eu solidarizo-me. Eu nunca tenho tempo para as coisas difíceis, deixo-as penduradas, os que o têm, vão fazendo as coisas acontecer, pudera, a minha vida é muito mais complexa, dou atenção apenas às coisas que não a merecem, e para as importantes, tenho mais do que fazer. 
E depois, lá está, há a ida obrigatória às finanças, os sacanas erram sempre para o lado que lhes convém, fazer a devida reclamação, acompanhá-la, enviar emails de indignação para tudo o que mexe, cruzar os dedos, esperar que a intervenção divina, que já desisti da governamental, ponha uma cunha a meu favor. O que nunca acontece, e como diria a outra, tantas horas gastas para nada. Ao menos fiz o que a minha consciência, aquela que os meus pais plantaram quando eu não estava a ver, me obrigou. 
Ainda tenho "aquela" consulta médica, que é chata e que não me apetece, e falando nisso, a outra que ando a adiar há que tempos, também não-de ser nada, e já agora uns quantos sinais que tenho mesmo, mas mesmo a sério, que ir ver antes do verão, já ando a adiá-los há umas dezenas de estações. 
Ao fim de semana não tenho absolutamente nenhum tempo livre, tenho o meu pai, e as suas esoterices informáticas, a minha mãe, num ou noutro extremo da sua bipolaridade, a minha mana que precisa de conversar com gente crescida e o seu filho, que é o meu reactor nuclear privado. Depois tenho a carra, os seus consertos, os respectivos desarranjos, as revisões não programadas, as inspecções, os soluços, os tremores, os barulhos, as dores de cabeça. 
E ao final do dia, por amor de deus, não me peçam nada, tenho encontro marcado comigo mesma. Fazer as compras, conduzir, apitar, sinalizar, esperar em filas, irritar-me, manobrar, estacionar e todos os outros verbos nos quais invisto para me levarem ao meu repouso. Arrumar os frios, os outros não são prioritários, fechar as janelas, tremer de frio, ligar todas as fontes de calor disponíveis, libertar das roupas pesadas, meter-me debaixo da água quente e esquecer-me do mundo por uns instantes. Improvisar um jantar, deixar a loiça para o próximo dia, que agora não me apetece. Num dia bom, faço até as unhas, com todo o seu aparato, limá-las, tirar cúticulas, acetonar o verniz antigo, abrir as janelas para não intoxicar, morrer de frio, desenhar o formato dos dedos com um verniz implacável, remover o excesso, deixar que seque. Estender-me no sofá enquanto isso não acontece. Lembrar-me que preciso de música, de mãos esticadas procurar os botões, cuidado para não estragar nada, porque se estragar, tenho de começar pelo princípio. E normalmente, assim que a música se levanta, dá-me vontade dum cigarro, e são raras as vezes que o verniz não fica colado ao isqueiro.
O tempo para mim não chegue, porque não é meu. Alguém, algum dia, sem o meu consentimento, ter-me-á forçado a assinar um compromisso de honra que me obriga, a partir do momento em que sou oficialmente adulta, a fazer tudo, menos aquilo que me dá prazer. 
Hoje mandei tudo ao ar e decidi arranjar tempo para escrever.

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