“Porque é que te irrita tanto a conversa do anel?”
Porque um anel não é um cilindro que enfeita o dedo. Não é uma jóia que concorre em preço e em brilho com outras. Não é algo que mostro de mão esticada, histérica às amigas em conversas fúteis, que não tenho, sobre vestidos de noiva, quintas, brindes, convites, fotógrafo e bandas.
Para mim um anel, O anel, é um símbolo. Um gesto. É um piscar de olho que alguém tinha que me ter dado para que ambos soubéssemos que éramos um do outro. Só, um do outro. É uma carícia na cara, um beijo na testa, um abraço longo. É um significado. Eu sou dele e ele é meu. Porque eu sou a mulher privilegiada com quem ele escolheu passar o resto dos seus dias. Eu vou ser a mãe, dos filhos, e um pouco a dele também. Vou ser os lábios que tiram temperaturas nas testas, que mudam fraldas, que fervem biberões. E ainda vou ser mulher. A mesma que vai desejar o mesmo homem todas as noites. Que vai pedir com jeitinho algumas bricolages, mesmo aquelas pequeninas que eu conseguia fazer. E as difíceis que apenas ele consegue fazer. E não criticar quando não correrem bem. Vou ser a mulher que apoia as decisões dele, mesmo que não concorde plenamente, porque tem de haver unanimidade. E ele vai ser o pai. O pai pode-se perder nos caminhos, pode teimar em não pedir indicações, pode irritar-se no trânsito, pode até ter a última palavra. E eu vou deixar, porque vou continuar a ser a mulher. Dele. Só dele e dos nossos filhos.
Vou acalmar o temperamento com um beijo na testa, um copo de vinho e duas cadeiras ao por do sol. Porque vamos conseguir superar a enfermidade da rotina, e roubar tempo só para os dois.
Porque me irritam as conversas sobre anéis? Porque munida de todas essas convicções, segura de ter sido escolhida como essa mulher, fiz o pedido. Não o casamento, mas o de futuro comum, viesse ele como viesse. E o pai não aceitou. “Não estás preparada para uma coisa dessas. Não me pressiones, tira isso da cabeça, nunca me vou casar, nem contigo, nem com ninguém. E é bom que este assunto morra aqui.”
Porque eu não tenho o anel. E já nem o quero. Porque um anel, O anel, seria um piscar de olhos do homem que nunca os chegou a abrir para mim.
Portanto, se não te importas, não quero falar. Não quero contaminar a tua felicidade com a falta da minha.
Hoje estou só a fazer tempo de chegar a casa. Tirar o sorriso descartável que usei o dia todo e, finalmente, chorar.
Portanto, se não te importas, não quero falar. Não quero contaminar a tua felicidade com a falta da minha.
Hoje estou só a fazer tempo de chegar a casa. Tirar o sorriso descartável que usei o dia todo e, finalmente, chorar.
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