Hoje acordei sem vontade acordar. Ontem recordei-me de assuntos dolorosos que tinha arrumado numa gaveta fechada à chave, julgava eu, e hoje ainda estou a pagar essa factura. Precisava de um empréstimo, porque é mais cara do que a liquidez que tenho. De manhã, abri os olhos, acendi a luz e aconteceu algo que nunca, mas nunca, me acontece. Não saltei com energia para fora de cama para abraçar as manhãs, que tanto adoro. Tinha sobre o meu corpo um peso anormal. Deixei-me estar. Mas não passou. O telemóvel tinha várias mensagens. Pessoas que me solicitaram, durante a noite, de formas diferentes. Não me apetecia falar com nenhuma delas.
A custo levantei-me e fiz o que tinha de fazer. Maquinalmente, tratei da roupa, a loiça dos dois dias anteriores. O banho que não tinha vontade. O cabelo que dá demasiado trabalho. Olhei-me no espelho e vi traços no rosto que se foram instalando quando eu não estava a ver. Levantei o cabelo dos ombros e imaginei-me sem ele. Cheguei a agarrar a tesoura. Mas depois faltou-me a coragem.
Peguei no telefone e procurei uma amiga de longa data. Perguntou-me como estava o meu tio, e com a pergunta, um murro no estômago. O meu tio já não está cá, disse-lhe eu o mais isenta que pude. O silêncio do outro lado. Querida, não sabia, desculpa. Pensei para mim, eu também não. Tento não saber, não me lembrar. Alguém me confirmou que ele já não está entre nós, mas acho impossível de acreditar. Acho abominável a audácia da vida, do destino, de Deus, do que quer que seja que deposita os seus pozinhos negros sobre pessoas cheias de vida e as condena, sem justificação à inexistência. Eu nem acreditava em Deus. Mas acho que vou passar a acreditar só para passar a odiá-lo durante o resto dos meus dias. Não o perdoo. Mas que merda anda ele a fazer? Nos últimos tempos levou-me a minha ama, o marido dela, a minha colega de faculdade. E agora o meu tio. Ando eu a tentar privar-me dos impulsos, a pautar-me por valores, aqueles que também a igreja vende, a verdade, a solidariedade, a verdade, a justiça, o perdão, que não consigo porque sou imperfeita. Não consigo sempre fazer o que está certo. Mas há pessoas que o conseguem sem esforço. E foram essas pessoas que tu levaste. Não o admito! Não aceito. E por isso podes mandar-me para o inferno que eu não quero saber. Também não quero a imortalidade ao lado de um ser arbitrário e caprichoso. Não aceito os teus desígnios. Só conheço as linhas tortas onde escreves. E já erraste demais.
Pode parecer, mas não me desviei do assunto inicial. Tudo isto é a morte. Continuem as pessoas a existir ou não, ainda não aprendi, depois de 32 anos a tentar, a deixá-las partir. Preciso de todas elas para continuar a ser quem sou. Eu não sou eu, sou um somatório trabalhado das várias pessoas que amo. Cada bocadinho da minha personalidade é construído sobre isso.
Porquê que as pessoas morrem de amor? Porque, juntamente com essas "mortes", vão sendo despojados, bit by bit, das várias peças que as constituem. Até ao limite em que deixam de ser o que são e se entregam ao vazio.
Gostei. Vou continuar atento.
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