Thursday, January 26, 2012

Pensamentos que não são para ler

Olho para as minhas fotografias e não me reconheço. Aquela não sou eu. Sou apenas o que tento ser para os outros. É certamente como as pessoas me vêem. E há um exercício que me assalta o pensamento. E se eu desaparecer? Se eu deixar de existir? 
Nada. 
A terra continua a girar, as pessoas vão continuar a sair de manhã, a correr freneticamente para o trânsito, já fora do tempo combinado para alguma coisa, há sempre uma hora marcada, mecanicamente a beberem os seus cafés, a recusarem calorias, ou a ingeri-las compulsivamente que já ninguém tem saúde emocional, faz parte, o café e o comprimido. Estimulantes, a forçarem a concentração, a imitarem a felicidade, a ocultarem as reflexões que isso é coisa de gente deprimida, esgotada e doente e não se pode incomodar os outros com a tristeza, esse bicho epidémico a que todos temos aversão, que as pessoas têm de conseguir ter conversas de ocasião, discursos comerciais, atender telefones, ser pressionadas a diluir a sua individualidade, a darem tudo o que têm e um bocadinho mais, porque tudo não chega.
Se eu morrer amanhã, o crime vai continuar, a crise vai persistir a aniquilar a espontaneidade dos seres humanos. Se eu desaparecer, vai continuar a fazer frio sem chover. Amores vão ser encetados, outros vão-se desapaixonar. 
Gostava de saber as vidas que eu toquei. Será que consegui inspirar alguém? Terei sido o suficiente para deixar uma emoção confortante no peito de alguém?
E o amor? Ninguém deve morrer sem ter sido perdida e profundamente amado. Será que a minha falta seria sentida? Para além da secretária vazia no escritório? Será que eu fui mais do que isso?
Se eu morrer à noite, só seria encontrada no dia seguinte, pela hora do almoço. Se morrer durante o fim de semana, só dariam por mim na segunda-feira seguinte, quando precisassem de uma daquelas coisas que faço para desenrascar os colegas.
Acredito que a vida e a morte não significam nada. Os que vão ficando, entre uma coisa e outra, apenas perdem tempo a tentar ganhá-lo. Só a vida pode dar importância à morte. É a única luta em que entramos a pés juntos para perder. 
Vistas as coisas, tive experiências muito boas, outras más. Ri muito, chorei mais. Perdi-me tantas vezes. Fui-me encontrando nos outros. Quase tive uma vida antagónica da minha. Apaixonei-me. Uma vez. Enganei-me em todas as outras. Fiz as escolhas que pude. Quando não pude, foram as escolhas a fazer a minha vida. Com o tempo, fui-me esquecendo de algumas coisas importantes. Daqueles pormenores que gostava de imortalizar no meu pensamento. Porque entre a imortalidade e o vazio, há um grau de incerteza que prefiro acautelar.
Quais são os pormenores que irão guardar de mim? As coisas pequeninas.. Não me prendam numa moldura empoeirada, esquecida por detrás dos bibelots, do cinzeiro e da caixa de rebuçados em cima de num louceiro sem uso.
Se eu morrer, libertem-me. Abram a janela, deixem a luz do sol entrar. Inspirem o cheiro da primavera e do asfalto amornado. Deixem-me partir.
Se eu morrer, amanhã ou no dia a seguir, fisicamente ou apenas no coração de alguém, não chorem por mim. Se eu fui alguém, sorriam ao lembrar-se de mim.

2 comments:

  1. Não podes “cessar a actividade” porque - e não só - este texto está extraordinariamente penetrante. Gosto assim. Talvez por isso estou aqui a exigir mais, muito mais senão é a mim que me pode dar o fanico!

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  2. Obrigada :)prometo que não vou "cessar a actividade", para já

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