Acordara com uma mensagem (Estás em casa? Abre). Descera as escadas sem conseguir abrir os olhos do excesso de luz, dormira demais (e que nervoso miudinho, o que será que ele estaria ali a fazer logo pela manhã?). A porta abrira-se e, como um Adónis ofuscado pela luz, só conseguiu ver o seu vulto, os músculos dos braços desenhados pelo peso dos sacos que carregava. Deu-lhe um beijo na testa (cheirava bem, aftershave, aquele perfume masculino e doce que já lhe começava a ser familiar), sobe vá, volta para a cama. Obedeceu a medo (que teria ele em mente, decididamente a relação ainda não tinha chegado a esse ponto e não queria apressar-se em nada, fazer absolutamente nada antes do tempo), escondeu-se por debaixo do edredão sem, no entanto, conseguir fechar os olhos. Escutava ruídos diversos na cozinha, claramente alguém que ainda não conhece o caminho das coisas, mas optou por não oferecer ajuda.
A porta do quarto abriu-se, lentamente, por detrás surgiu ele, já sem o casaco, transportando um tabuleiro. (Como é que ainda não tinha reparado nas suas mãos, linda, dedos compridos, bem desenhados, pulsos firmes, unhas limpas e rasas). Sentou-se a seu lado, depois dela se desviar para lhe dar espaço e sentar-se, ajeitando uma almofada nas suas costas. Ele acariciou o seu rosto, usando o mesmo movimento para lhe prender os caracóis desalinhados por detrás da orelha. Serviu-lhe sumo, salpicou umas gotas de mel nos scones e deu-lhe um morango a trincar (quem é este homem e porque razão não se tinha apaixonado por ele antes?).
Ao terminar, encostou-se ao seu lado, o braço enorme dele surripiou por cima dos seus ombros e ali se deixou adormecer.
Sentia-se embalada pela sua respiração, envolvida por um cheiro no qual tinha inevitavelmente, agora mais que nunca, de se perder (dure o que durar, não ia procurar mais).
Sunday, April 29, 2012
Os amigos não se arranjam, não se procuram, encontram-se. Por um acaso, circunstância ou afinidade, há pessoas que, em determinada altura, afloram na nossa vida e lá abrem o seu próprio espaço. Não importa os sítios onde estão, as opiniões que têm, as escolhas que fazem. Aceitamo-los como vêm, porque nos fazem o mesmo. Os amigos são espontâneos, não precisam de grandes ponderações para aceitarem os maiores ou os menores desafios à última da hora, seja ela imprópria ou aceitável, convocamo-los e cinco minutos depois eles aparecem-nos à frente, com vontade de nos ver, trazem-nos coisas para partilhar os momentos, nem que seja um sorriso ou outro gesto qualquer que nos faz sentir especiais. Os amigos não têm preço. Amamo-los só porque existem e porque são como são, às vezes odiamo-los, às vezes discutem, passam tempos sem falar, os amigos fazem-nos rir, fazem-nos chorar, estimulam os instintos mais particulares que nós temos, porque com eles não precisamos de ser outros.
Voltas que as coisas dêem, os amigos são a forma de amor incondicional mais determinada que existe. Amar um amigo, é uma escolha que se faz para a vida.
Os amigos são família, confidentes, conselheiros, são companhia, são carinho, são lucidez e irreverência, tudo na medida do que é preciso. Os amigos fazem-nos levantar da preguiça e do comodismo para fazer as coisas mais improváveis, sem qualquer outra motivação que não seja o prazer puro de uma companhia.
Os seus nomes tornam-se conceitos básicos da nossa existência, tão indispensáveis como aqueles que dão sentido a “mesa”, “comida” ou “coração”. Nós podemos ser nós, indivíduos cheios de singularidades que nos definem, mas com os amigos somos mais. Somos melhores.
Obrigada. Por serem quem são. Por me acompanharem. Por não me julgarem. E especialmente por rirem e chorarem comigo em todos os momentos.
Ver tudo, entender tudo, sentir tudo é finalmente adquirir a capacidade de aceitar tudo com resignação.
Apesar de feia e pesada, a resignação nem sempre é um estado de espírito inferior. Às vezes é tão somente a porta fechada de que precisamos para procurar outras saídas. Outras entradas. Um empurrão que nos troca os pés e atira ao chão, para que erguer seja uma decisão de força e não apenas uma circunstância.
Até diria que é um abrir de olhos de um estado cego e irracional, psicotrópico a roçar a overdose, que nos força a sacudir os ossos e a deixar que o rio nos leve, eventualmente, até ao mar.
Não há grande justificação para quando se chega lá. Mas chega-se. Porque enfim percebemos que não podemos ser diferentes do que somos. Por muito que tentemos, estes são os nossos genes, olhos verdes ou castanhos, altos ou baixos, magros ou mais ou menos. Esta é a nossa história de vida e a sua consequência é a nossa personalidade, o nosso molde, a nossa reacção. Somos isto, não somos nem mais nem menos. Por muito que queiramos, não somos outros. Somos estes. E “estes” nem sempre chegam.
O que, no fundo, a resignação nos vem ajudar a fazer é a carregar a mala à tiracolo, por pés à estrada e de olhos em linha recta com o horizonte envolver-nos da convicção ou esperança de que um dia o nosso “menos” seja o "mais" de alguém.
Saturday, April 28, 2012
Quanto tempo temos para nós? Quanto tempo podemos esperar que a vida mude para fazermos alguma coisa dela, alguma coisa que nos seja importante? Podemos inventar todas as desculpas, a mais óbvia, não temos tempo, ou não temos dinheiro, ou a profissão não permite, ou ainda não chegámos àquele ponto da carreira do qual conseguimos sentir o cheiro do sucesso, para que nos sintamos realizados o suficiente para... finalmente começar a viver.
Não quero esperar. Não quero que o tempo tome conta de mim, quero eu antes fazer dele aquilo que eu preciso. Quero amar o homem que amo, quero que ele me ame de volta com toda a lamechice e foleirada que está associada. Quero romance, palavras bonitas, sorrisos carinhosos, quero ficar horas a olhar para ele e imaginar de que cor será os olhos dos nossos filhos, a que feitio vão puxar, quero ser mãe dos filhos e do pai, quero que ele seja pai de todos também. Quero cozinhar para todos e reclamar para que comam a sopa e a salada, quero-lhes contar, vezes sem conta, a história de como me apaixonei pelo pai. Quero que eles tenham mais respeito pelo pai, mas que venham a correr para mim quando lhes doer a barriga. Quero que o pai lhes conte histórias e que chame pelas minhas cantigas quando ainda não os tiver conseguido adormecer.
Sou absolutamente incorrigível. Mas não vou pedir desculpas por isso.
Nem me mexi. Surgiste à minha frente, como a primavera no meio da tempestade, atiraste-me com a luz do teu olhar de frente, nem me deste tempo de me encobrir. Não estava preparada para esses olhos azuis. Baque no peito. A circulação gelada, dentro das minhas veias. Baixaste os olhos, disfarçando, escondendo que os meus olhos te perturbaram de volta. A sala escureceu, quando a abandonaste de novo ao inverno. Não te vi sorrir. Sei que os não deves entregar de barato. Detesto sorrisos fáceis, e raramente me importo por quem os distribui como gelados na praia.
Mas tu, não. Tu és diferente, não és? Tenho para mim, que não voltaria a pensar em ti, não tivesse a tua fotografia surgido, por acaso ou circunstância, no meu monitor. E já me conheço o suficiente para saber os sinais da minha sorte. Sorrio. Oscilo. Reflicto. Observo.
E há uma sequência de imagens que se constroem no meu futuro. Uma conversa, o teu sorriso (que quase posso jurar que é) envergonhado. Perderes a naturalidade, e tentares esconder esse segredo com movimentos desajeitados. Passares a mão pela nuca e quedá-la no teu pescoço. Olhando o infinito. Evitando o meu olhar.
O primeiro beijo, que certamente me vais roubar num segundo, o qual não vais distinguir entre a loucura e a ousadia (porque vais pensar ou dizer-me que não tens jeito para estas coisas), o no instante após o furto, em que me vais fixar à espera de uma reacção que nunca poderá ser outra que não repeti-lo, com mais demora. Vais olhar para baixo, sorrir de nervoso, segurar-me pela mão e levar-me contigo.
E depois disso, não a vou largar mais.
Gosto de ter a tua companhia. Admiro a tua alegria enérgica que nunca, mas nunca, se esgota. Fico feita tonta quando vais a correr preparar-me uma bebida só para eu te conte as minhas novidades. Sentas-te num qualquer canto da sala a ouvir-me, bem e mal, nomes e palavrões que contigo não preciso de evitar. No instante a seguir a eu ter terminado, tens sempre qualquer coisa para dizer que, mesmo não conhecendo assim tanto sobre mim, costuma fazer sentido. Adoro que sejas uma pessoa crescida e resolvida que apareceste para trazer um bocadinho de bagunça à minha organização e me mostraste a importância de não ter medos. Adoro que faças parte da minha vida, ainda que apenas por uns breves momentos.
Adoro que sejas uma pessoa apaixonada por tudo e apaixonante para todos de quem eu sou privilegiada de estar por perto.
Tu és o motivo, e um dos melhores exemplos, de como eu me apaixono todos os dias. Assim, sem mais nem menos, só porque sim.
E se te apaixonasses? Eu estou sempre apaixonada [sorriso arrogante estampado], oh idiota, não estou a falar disso. Então estás a falar de quê? Estou a falar de paixão que nos faz voar. Voar? Eu diria que nos faz cair. Já não acreditas? Acredito, e todos os dias. Mas a paixão que a seguir arrasta o amor por uma orelha é diferente. Eu sei, eu já senti isso, eu sinto todos os dias. Não é verdade. É. E se o mundo fosse acabar, o que farias? [capaz disso era o mundo, em dois dias acabar com a brincadeira] Há muitas formas do mundo acabar. Especialmente o meu. Porquê? Porque bastava mudar tudo. O que fazias, então? Eu? Fazia qualquer coisa. Apaixonavas-te? Mas achas mesmo que não estou apaixonada? Acho. Porquê? Porque te falta o brilho nos olhos. [eu sei] Achas que eu não sei fingir? Sabes, e isso é assustador. O que farias? [Tudo] Provavelmente nada. Afinal és tu a cobarde. [Acredita que não] Terias dois dias para impedir o mundo de acabar. Eu nunca impediria o curso próprio do mundo [ia morder o sorriso para fora daqueles lábios], acho que a paixão só acontece quando é inevitável, caso contrário é outra coisa qualquer. Tens a certeza? Tenho. Como? Nunca me engano. Bah, que treta. Verdade. Essas paixões de todos os dias não te fazem correr? Às vezes [sempre], outras vezes só quero ficar de fora a observar [quieta a ser segurada nuns braços quaisquer, quentinha, protegida, respirar um cheiro como ao oxigénio, só ficar ali, chegar a Casa]. E os teus impulsos, aqueles que só te dão problemas? Só os deixo sair à rua quando o contrário já não me for possível. [esperar por esse estranho, deixar que venha. Devagarinho. Sem fazer barulho. Sem que eu perceba que vem. Mas que venha, porque vou estar aqui]. E o mundo a acabar? O mundo só acaba quando eu disser. E até lá? Vou esperar. O que esperas? Que venha alguém, e que o meu coração abra trancas a essa luz e me empurre em queda livre para o desfiladeiro.
Quem és tu, sorriso alinhado, cabeça nua, tronco elevado, que me levas nos braços e me fazes voar pista fora?
Quem és tu, passarinho verde, azul ou lilás, que poisas no meu parapeito e me observas pela primeira vez, sustendo a respiração? Quem és tu que me procuras, cinco minutos após me teres deixado? Quem és tu, que não tens tempo a perder, porque já viveste o suficiente para perceberes, sem rodeios, o que te agrada, o que gostas, aquilo pelo qual vale a pena correr sem parar?
Quem és tu, voz doce, serena, que me falas ao ouvido e sossegas a minha ansiedade? Quem és tu, homem sem medos que me fazes sentir bela e melhor do que isto, melhor do que os erros cegos que teimo em cometer, uns após os outros?
Não te sei explicar porquê, nem como. Mas quero ir contigo ouvir as ondas rebentar. E se nos cansarmos, podemo-nos deitar na areia e desenhar associações nas nuvens cinzentas? E deixar que nos chova na cara? Podemos beber a água da chuva e dar as mãos, para não deixarmos um ao outro ceder aos sinais do inverno. Se nos encharcarmos demasiado, podemos tirar a roupa e embrulharmo-nos os dois na manta que tens na mala do carro. Abrir a porta da bagageira-gaiola e sentarmo-nos lá a comer batatas fritas enquanto as montanhas desabam no mar. Queres? Eu prometo que desta vez não fujo. Não arranjo uma desculpa para sair em bico dos pés, quando não estás a ver, ou escrever um bilhete carinhoso que, nem por isso, mostra mais consideração por ir-me embora sem te dar sequer um beijo.
Podemos ainda ceder aos teus devaneios e jantar a madrid. Vamos dormir a Paris, depois de andarmos na roda gigante. E como sabes que tenho medo, podes abraçar-me e obrigar-me a abrir os olhos para não perder a magia da cidade de cima à noite.
Ela 1, quero sair, estou de férias, e meio com os copos, Ele 1, não dá vou dormir (oh, que seca, apetecia-me mesmo uma noite funcional), Ele 1 (só uma mulher com tatuagens por todo o corpo me faria sair do quentinho agora), Ela 1, vamos beber um copo a qualquer lado, Ela 2, estou cansada, Ana (ora bolas, tenho de fazer alguma coisa com o que já bebi), Ele 2, quero ver-te, preciso ver-te (não acho boa ideia, ontem foi, hoje não), Ela 1, estou cansada, vou ficar a ver filmes e a comer gelados de litro, Ele 2, vou insistir (e agora, como me desenlaço desta, a culpa é minha, quem me manda investir só para ver se posso), Ele 3, vamos fazer alguma coisa, tudo acontece esta noite, Ela 1 (afinal já não me apetece sair), estou doente do coração, Ele 3, já te disse que é para guardar a viola no saco, Ela 1, já arrumei, juro, Ele 3, temos de falar, que andas a fazer, Ela 1, tudo, nada, estou quieta, Ele 3, não acredito (conheces-me tão bem), mas sei que passa depressa, já passou, Ela 1, sim, Ele 3, eu sabia, quando nos vemos (preciso do teu abraço, vem cá, apetece-me rir e chorar nos teus braços, como tu me lês, adoro como me dizes tudo e nada e me deixas sem resposta, preciso de me calar com as tuas palavras, ficar a pensar nelas quinze dias), Ele 3, quando (já), Ela 1, um dia destes, eu telefono, Ele 3, devo sentar-me, (não, quero já), Ela 1, tonto, claro que vou ligar, um dia breve, prometo, Ele 3, não tens saudades minhas (muitas), Ela 1, convencido, só te posso ver quê bê, fazes-me mal (bem), tenho de ir, Ele 3, tens nada (tenho nada), Ela 1, até um dia.
Queria escrever sobre ele. Porque não me diz tudo. Fala por meias palavras, esconde, empurrando para si, como às fraldas de uma camisa para dentro das calças, os segredos que lhe priva liberdade.
Tomamos café juntos. Há muito tempo que não o fazemos. Há tempo demais. Há coisas que se perdem, assuntos que não se partilham. E que importante é partilhar essas conversas sobre nada. Fico a soprar o café queimado, que me tira o gosto das coisas, mexendo o líquido com uma colher minúscula. Enquanto isso ele, de marcas profundas nos olhos, controla a vontade de rir e mede as palavras com que me diz que eu tenho de ser melhor. Eu aceito tudo dele, não de outra pessoa, mas dele. Tenho um impulso enorme em contar-lhe todas as coisas. Já dei comigo a confessar-lhe as minhas aventuras de menina, coisas que guardo só para mim. Faz-me bem a aprovação dele. Não preciso, mas faz-me bem. Não sei porquê. E ele, sem querer, protege-me. Confia em mim e cuida que eu vou ser grande e fazer grandes coisas.
Queria escrever sobre as histórias dele. Deve ter mais de mil. Tenho uma curiosidade palpitante em saber como ele vê o mundo. Porque é o como é, hoje. De vez em quando desenrola um bocadinho do fio que emaranha a sua teia. Para depois, voltar a enleá-la. E retorna ao silêncio.
Não pretendia escrever estas palavras, pois colocar em palavras pensamentos, vivifica-os. Com todo o risco que isso tem. Senti que devia reconhecer este carinho com que me tens acompanhado. Mas porque é que me tens acompanhado? Ocultando alguns buracos, uniformizando o caminho. Lendo linha a linha as minhas divagações e obrigando-me a ser melhor. Mesmo nas divagações. Que morna esta amizade. Que imprescindível este carinho. Os amigos são assim. Partilham músicas, gritos, gargalhadas. As mais impronunciáveis ofensas aos chefes. Encontram assunto em todas as banalidades. E conseguem evitar os assuntos sérios. Só às vezes. Dou por mim a contar-te coisas que nem a mim revelo. Sem teres perguntado. Gosto de ti porque me respeitas. Respeitas e adoras as mulheres como seres humanos. Que lindo isso é.
Obrigada. Um agradecimento que devia ter saído há três meses atrás.
Olha o espelho e mergulha bem lá dentro. As coisas que nele vês não são reais. As coisas verdadeiras não têm reflexo. O teu sorriso, onde está? Alguma vez será o mesmo? Onde perdeste esse amor, pequeno pássaro? Onde o deixaste? Olha para ti e sorri. As palavras não valem nada. Especialmente as dos outros. As palavras não te podem ferir. Queres voar e não podes porque o teu destino é um caminho irreversível. Sossega o teu coração, pequenino pássaro. Para onde queres voar? Que cores existem nesse teu ninho? Permaneces parado nesse teu parapeito esperando que alguém te salve. Mas ninguém repara em ti. E ninguém salva ninguém. Especialmente um passarinho tão pequeno como tu. Não gostas mais desse teu parapeito, não é? Nem mesmo o espelho já te diz a verdade. Ninguém te vê, nem o teu espelho. Perguntas-te para onde foi a tua voz. E já nem te recordas como era bela. Queres ficar mais um instante, mas não tens razões. Ninguém quer que fiques, apenas não querem que te vás. Penas de ouro. Histórias de um mundo azul, numa vida antiga. Ainda te lembras? Esquece. Ninguém tem tempo para te ouvir. Olhar tristonho. Pássaro sem asas, para onde queres voar? Esse sítio é perigoso. O paraíso não existe. Só nos teus olhos cor de rosa. Inspiras fundo e, sem querer e, só por um instante, parece-te sentir um perfume a doce muito antigo e familiar. Procuras o espelho e ele já lá não está... Dás um passo sobre as tuas curtas passas e esqueces-te, intencionalmente, que já não tens asas. Nem nunca tiveste, não é passarinho? O mundo lá em baixo pequenino, cresce à tua velocidade e tu decides quando esta pára. A meio caminho, estacaste-la. Pairaste por uns segundos, a observar as luzes em teu redor, os espelhos que, de repente, se erguem por todos os lados. Finalmente, o teu reflexo, a tua imagem, cheias de coisas verdadeiras das quais já não te recordavas. Finalmente a tua voz, bela, bela, bela... Finalmente, tu.
Vou dormir, vou descansar. Fechar os olhos, pesar o corpo, deter o cansaço. Vou tirar os sapatos, cobrir-me de sedas, fechar os estores, correr as cortinas, calar os sons, ignorar o mundo.
Vou descansar porque o corpo pede, o corpo precisa e a alma não deixa. Estar alerta, estar sempre de vigia, porque alguém pode chamar, porque o que é preciso ainda não foi feito, porque há mais a fazer e amanhã não é dia, amanhã não é resposta e eu sou só uma, tenho apenas duas mãos que não chegam para as encomendas. As encomendas são listas que o meu pensamento projectou, que a minha alma exige de mim, porque eu ainda não fui aprovada.
E amanhã chega o dia, amanhã a avaliação, e a prova não está finalizada, a responsabilidade falhou, o meu trabalho falhou, a minha resposta é insatisfatória.
E amanhã vai chegar. O meu corpo já não consegue e eu não o ludibrio mais que ele já não cai, e ele cede, ele tropeça, a tontura a quarenta e cinco graus acima dos olhos, a náusea deslocalizada sempre presente, a maçar e o corpo a gritar, que não há tempo, que o tempo já passou, que é tempo de o deixar de haver.
E amanhã chega. E eu vou dormir. Vou aceitar a fadiga, vou embrulhá-la em pacote, remessá-la para longe. Vou abraçar o travesseiro. Não me digam nada. Não me telefonem, não me procurem que hoje, vou descansar.
Hoje sonhei com ele. Curioso. Há muitos anos que nem sequer me recordava das suas feições. E, talvez por isso, decidiu visitar-me esta noite. Trazia uma expressão serena, de quem se tinha esquecido das mágoas provocadas por mim. E, como em todos os sonhos onde nem tudo faz o sentido que devia, recordo de pequenos pormenores que só um sonho podia ressuscitar. E quanto tempo demorei a rasurá-los da minha memória… sonho maldito! Os dedos afunilados nas extremidades e a maçã de adão agravada pela magreza. Um sorriso desarmante. Carinho meu, carinho desconcertante.
De qualquer modo invadiu o meu leito, esta noite, para me recordar que o passado é só outra forma do presente. Porque não o enterrei, não lhe fiz luto. Não vesti preto e não derramei lágrimas por si. E precisava tê-las derramado. Porque assim não consigo aceitar que ele já não exista para mim.
E, numa dessas vezes, tenho vontade de cortar o meu cabelo, de me embrulhar numa seda transparente, usar sandálias, construir uma cabana perdida na montanha e esquecer a cidade. Não usar palavras para comunicar, tenho rosto e olhar, tenho o tacto e todos os outros sentidos a meu favor. Queria esquecer o tempo, sentada num tronco velho no meio da floresta, parar, escutar o silêncio da Terra. Deitar-me sob as folhas secas, ouvi-las estalar sob o meu peso, deixar o vento roçagar a seda pelo meu corpo. Passear de cabeça nas nuvens e olhos fechados, palmas abertas rasando a vegetação alta. Sentir o cheiro de cada uma das flores. Mergulhar nua num lago protegido entre as árvores. Secar, estendida sobre uma rocha macia, ao sol. Correr, sofregamente, até deixar de sentir as pernas. Sentir frio, calor e frio outra vez. Deixar chover violentamente sobre mim. Lavar o sal do meu corpo. Não ter um mílimetro seco da pele. Ser surpeendida pelo cativeiro intransponível dos braços dele. E ele, cortar lenha para nos aquecermos de noite. Repousar a fadiga no seu colo, deitar a cabeça sobre o seu peito gigante. Não ter que dizer uma palavra. Nem ter que ouvir uma de volta. A minha mão ser apertada pela dele e ser esse o gesto da nossa união. Ser eterna no seu sorriso e ele, a essência do meu cheiro. Fundir-me no seu beijo.
E depois da descarga da adrenalina, vem o cansaço. Vem a inércia, o largar o peso do corpo à cama e deitar fora a força bruta que fui buscar, nem sei onde.
Ontem, I took the long way home. Fui forçar-me ao frio do Tejo. Fui procurar o silêncio que tem o burburinho daquelas águas. Aquele ar gelado tem a tendência de clarear os pensamentos quando eles estão embrulhados.
E assim foi.
Vou virando as palavras do avesso para as interpretar da forma como me fazem sentido. E cedo percebo, que não há sentido nisso. Faz parte da minha – nem a propósito – inteligência emocional. Sim, talvez seja um contra-senso. Ou, então, simplesmente experiência de vida. E a minha, neste caso, diz-me o que eu não quero aceitar. Mas não me cabe a mim fazê-lo. Meio sem querer, já o fiz. Acho que estou pronta. Agora sim. Largar amarras. Lançar outras ao mar, atracar outras embarcações. Para medos, antes um desconhecido. Pelo meio, conversas, como cerejas, que me ajudam a entender. A minha resolução é ouvi-las com mais atenção. Prometo. Praticar essas aprendizagens sem preço que me podem poupar quilómetros de viagem.
Por muita régua que ladeie ao fio que conduz o meu pensamento, volta e meia aparece-me uma imagem que me desordena tudo, não fosse a minha pré-disposição para estas coisas, foi apenas um milissegundo de um milissegundo. Mas apanhou-me desprevenida, foi só.
Pés descalços na areia, quatro, calças enroladas acima dos tornozelos, sapatos à tira colo.
A humidade, do mar, do clima, a pesar com pouco significado sobre a pele arrepiada de ambos. Mãos inocentes, guiadas por desejos escondidos à espera de ver a luz da lua, rasando-se em provocação. Paragens, inesperadas no curso da linha de rebentação, para olhar os meus olhos, paralelizando-os com a profunda cor de oceano, tal como ele, os meus não têm fim. Dois dedos enrolados nos meus caracóis, um peito colado às minhas costas, peito gigante onde toda eu encaixava, outro braço envolvendo a minha cintura. Um perfume estonteante, uma respiração ao meu ouvido, interrompendo o silêncio confortável. As palavras não eram pedidas, não eram dadas, só a música das ondas, os sons dos tecidos agitados pelo vento, pelos movimentos, uma força de braços que não queria largar. Emoções, demasiadas, mais que muitas, todas juntas, nem sabia em qual pegar primeiro para beber de cada uma delas, com tudo a que tenho direito. Respostas a perguntas que não precisaram de sair à rua, surgiam como ondas a desfazerem-se nos nossos pés. Sem pressa de ir para algum lado, o tempo desistiu de girar ponteiros, porque não havia mais nenhum outro sítio para onde ir.
Deitar-me a teu lado quando já dormes. Soninho de bebé, sereno, descansado. Postar a cabeça, diante da tua, de mansinho, para não te despertar, sentir a tua respiração, compassada, sobre o meu rosto. Um ligeiro desenho de sorriso, nos teus lábios, tão perfeitos que nem os posso tocar. Afagar o teu cabelo, desalinhado pelo sono. Acariciar-te o rosto e sentir a tua mão, instintivamente, procurar a minha. Borboletas no estômago só pelo teu toque, mesmo quando dormes, mesmo depois de tudo o que já passou. Sentir que não poderia ser de outra forma.
De manhã, acordar-te com um beijo nos lábios enquanto reclamas das obrigações. E não conseguires sair da cama sem o meu abraço.
Nem que eu viva mil anos, existirá um chocolate com este sabor. Quero este sorriso, sempre.
Ora bolas, logo agora que já tinha feito planos, pensou ela, não posso desmarcar (ou será que posso - tentava encontrar nas paredes à sua volta uma desculpa que fosse credível), logo agora que já não tinha grandes expectativas que a procurasse, logo agora que já estava no processo inverso. Mas não conseguia evitar, fugir, queria baldar-se a todos os compromissos que não fosse ele, nada que pudesse fazer, ninguém com quem pudesse estar, lhe podia dar um miligrama do que ele lhe dava em apenas um sorriso.
Revisitando aquelas memórias muito recentes, recordava da propriedade com que lhe pousava a mão sobre o joelho, o rubor no rosto que ela, com esforço, disfarçava, a indiferença com que representava aquele gesto que ela só queria que não tivesse prazo definido. E os pensamentos traíam-na, queria que aquele, e o outro, joelho fossem dele, o resto das pernas, os braços, as mãos, a cabeça, o cabelo, dava-lhe tudo o que fosse corpo, porque a alma, mesmo que ele o não soubesse, já era sua.
Tinha-se aberto uma janela de oportunidade, nem a propósito, o compromisso desfizera-se, teria coragem de recuperar a vontade dele de a ver?
Mas qualquer coisa a travava. A dúvida instalara-se. A ambivalência entre o "para a frente é que é caminho" e a iminência da repetição, de a qualquer momento poder ver nele um olhar vazio, um sinal de desinteresse, uma frase fugidia esboçando um "já não sei se quero", gelava-a, imobiliza-a.
Deixava a resolução para o impulso que, a um minuto do encontro, deixaria tomar a decisão por si.
Escrever sobre ti é dissecar uma tela de Picasso. É dizer que Deus tem pele e tem carne e que se lhe pode tocar. É descrever, falando, ao que sabe um figo maduro. O prazer irreproduzível. Falar sobre ti é adocicar o imenso Oceano, que escorre pelo rosto dos namorados. E eu preciso de sal, quase tanto como do sabor do figo maduro. Menos do que preciso de uma tela de Picasso. Medir a tua dimensão é contar as estrelas que salpicam o céu. E tentar apagá-las num sopro. Não sei escrever sobre o que não tem limite, por isso ignoro o Universo, atrás de mim, por isso mergulho no Oceano e não diviso o seu fundo. Por isso, a música liberta-me as lágrimas que o imenso Oceano salgou. Por isso seguro num punhado de areia e me delicio, à sua fuga, por entre os meus dedos. Por isso, não tenho ilusões sobre onde chegas. Não vejo mais do que és. És mais do que as pessoas vêem. E escrever sobre ti seria capturar uma imagem impossível porque, nesse preciso instante, já teria escapado para outro qualquer lugar.
Sunday, April 15, 2012
Há muito tempo que efectivamente não íamos àquele lugar. Um lugar comum, desconhecido, novo ou velho, não interessa, mas um sítio onde estivéssemos os dois, com vontade de estar, sem querer fugir para outro lado, por desconforto, cansaço, tédio, desinteresse ou o que quer que fosse. Ficamos tempo demais, mas gostei de esticar as horas para aproveitar esse tempo meu, nosso, em que finalmente recuperámos os temas livres, transparentes, abertamente, sem mal estares ou pudores. Conseguimos desinteressadamente estarmos ali um para outro, ouvindo, falando, trocando opiniões, concordando, discordando, mas dedicando esse espaço à energia que nos unifica nesta amizade sem preço. Foi essencialmente confortante, podermos dirigir as palavras um do outro à expressão atenta e interessada do outro com o único intuito de ressuscitar a semente que, há pouco tempo, tinha pouca esperança de vida.
Às vezes penso nos motivos que nos terão levado a dar isso de barato, só para "ver como é". Terá valido a pena, para mim, para ti?
Gosto de pensar que fui uma tempestade do deserto, que veio agitar esse teu mar "sem ondas", talvez depositar alguma areia na vista, nos ouvidos, nos outros sentidos também, mas apenas para, quando passasse, te permitir ver claramente o que realmente queres, ou melhor, não queres. Se tiver sido um bocadinho que seja responsável pelo "step number three", onde eu creio que já tenhas chegado, então já terá valido a pena.
No meu caso, acho que foste uma lufada de ar fresco, uma emoção que me fazia falta na altura e, no fundo, um exercício de matemática à minha intuição.
Não sei se, a curto ou médio prazo, as circunstâncias nos continuarão a permitir estas "sextas-feiras" tais como a de ontem, já conhecemos a velocidade a que as motivações se transformam, por isso vou aproveitar enquanto as houver, enquanto ambos estivermos cá, de alma presente para dar e receber esta consanguinidade que nos faz irmãos, companheiros e confidentes, até chegar o momento em que, com um sorriso nos lábios, um de nós entrega o outro à "gravidade".
Está para breve o teu aniversário. Não pensei que o fosse recordar, não sem a ajuda do calendário do facebook, ou do lembrete da mãe. Mas hoje, quando acordei, não me perguntes porquê, lembrei-me que esse dia estava para breve. Passam dias, semanas, meses em que não gasto um minuto a lembrar-me de ti. Ou então que o uso para tentar não me lembrar de ti. Que tu existes e tens, inevitavelmente, importância.
É mais um ano que passa na tua vida, é mais esse tempo que te devia ter amadurecido, é um ano que perdes na tua longevidade, é mais um ano que te aproxima do nada. A distância isenta-me de acompanhar as rugas na tua expressão dura, ou as manchas nessa pele gasta, a cor que vai abandonando os teus cabelos ou as auréolas azul-acinzentadas que vão limitando as tuas íris. Não o vi gradualmente acontecer e causa-me estranheza cada vez que te encontro. Tenho dificuldade em reconhecer aquilo que, de ti, tenho algures na memória, nos momentos em que a convivência era continuada.
Gostava de te desassociar do desconforto e da decepção que me invade com a tua presença. Mas não consigo e acho que ainda não quero. Preciso agarrar-me durante mais um bocadinho a esta raiva que me debilita e, ao mesmo tempo, me dá uma espécie de alento.
Só por acaso vivemos no mesmo planeta, pois quem nos ouve conversar sobre o nosso mundo, não acredita que o meu e o teu são o mesmo. Sempre foi o nosso desencontro, a perspectiva do mundo, como o vemos e como queremos que seja a nossa passagem por ele. Mas, convenhamos, sempre foste irredutível e eu, desde criança que sei bem o que sou e quero, ninguém vai mudar ninguém. Chegamos sempre a esta encruzilhada intransponível a partir da qual cada um segue a sua estrada. As nossas conversas terminam sempre, mas sempre, numa disputa à que nós, por alguma consideração pelo incómodo da plateia, damos fim, longe de consensual, eu com um revirar de olhos, e tu, nem sequer disfarçando que eu te desapontei. Mais uma vez. Sabes que mais? Tu também me desapontaste. E tu, de todas as pessoas, não tinhas a liberdade ou ligeireza de o fazer. Devias ter estado sempre lá. Não me podias ter falhado. Eu estava a crescer, a errar, a aprender com isso, e tu? O que raio estavas tu a fazer? A marcar uma posição? A ensinar pela dor ou pela indiferença? Repara bem onde isso nos trouxe.
As minhas limitações são as tuas limitações. Diante as quais te vi imóvel, sem poder de resolução, a virar costas e partir para outra, a deixar o problema, como um menino, nos braços de alguém. Que não tu. Tento culpar a minha vida, e as opções que nela fui riscando, das minhas incapacidades emocionais, dizer que foi esta ou aquela paixão que me abalaram, que me traumatizaram, que me fecharam os braços quando, no fundo, sei que foste tu. Foi o que te vi fazer, não ficaste com a mulher mais fantástica que já te passou pelos olhos e tu, sem saber ler nem escrever, conseguiste que ela olhasse para ti, já agradeceste aos céus por teres tido uma deusa? Já te penitenciaste o suficiente por tê-la deixado partir? Não. O que quer que faças não será suficiente. Não para ela. Não para mim.
Por tudo isto, quando vejo os traços da idade imporem-se no teu rosto, penso que o tempo corre a teu desfavor, terás noção de tudo o que ainda tens para remediar?
Talvez daqui a uns tempos, quando eu for tu, e tu fores outra pessoa, eu tenha conseguido a paz para relevar tudo aquilo porque te culpo, talvez consiga gostar mais de ti do que aquilo que não gosto. Talvez. Um dia vou tomar café contigo e dizer-te, foste uma merda, mas não soubeste ser melhor e eu gosto de ti, apesar disso. Porque mesmo que não nos conheçamos, não nos falemos, não nos contactemos, nós somos o mesmo, feitos da mesma massa, do mesmo sal e, se tu assim não o tivesses permitido, hoje não teria acordado de manhã a pensar em ti.
Um problema. Tinha surgido e obrigara-o a desmarcar o encontro. Tão simples quanto isso. Ela ficara a olhar para o visor do telemóvel, a ler aquela frase várias vezes, a colocar vírgulas onde estas não existiam, a substituir palavras por sinónimos, a imaginá-lo a escrevê-las e a sua expressão a fazê-lo. Tentava ser ele e supor um problema que a fizesse desmarcar um encontro que seria, como os anteriores, tão cheio de emoções. Não, castigava-se, e atirava o telemóvel para cima do sofá. Só para ir buscá-lo novamente. E reler as palavras que já tinha dissecado de todas as formas possíveis.
E se ele tivesse perdido o interesse e usado uma desculpa qualquer para a evitar? E se tivesse tido uma proposta mais interessante que a sua? Pior, e se tivesse reencontrado a namorada antiga e repescado a paixão?
Lembrava-se das conversas dos amigos que lhe diziam que as mulheres complicam as coisas demasiado as coisas e que quando um homem quer realmente estar com uma mulher, não há desculpas que o previnam. Era isso, só podia ser isso. Ele já não tinha vontade de a ver. E os últimos encontros? Teriam sido um logro, ou mal interpretados por si? Não podia ser, a energia do envolvimento é visível a léguas e transmissível pelo ar. E ela tinha-a, definitivamente, sentido. Não se podia ter enganado. Não tanto. De repente, sentiu-se ludibriada. Tinha-o afastado tantas, mas tantas vezes, porque motivo tinha ele insistido tanto, se era apenas um jogo? Quando finalmente ela começava a ceder.. ele perdia o interesse? Não o tomava por um desses dandys. Que tonta, pensava, que idiota. Já tinha experiência, já tinha vivido tantas paixões e desamores, tinha a obrigação de saber melhor. O baque que sentia no peito era sucumbido apenas pela auto-decepção, pela rejeição, pela situação onde a sua própria estupidez e ingenuidade a tinha colocado.
Em todos os cenários que projectara, só via uma solução. Tinha de o eliminar definitiva e rapidamente da sua vida. E convencia-se disso enquanto entoava uma lenga lenga em voz baixa, inspirada por amigos, fumando um cigarro à janela e mordendo o lábio para não chorar:
"É preciso matar as pessoas. É preciso deitar fora o amor que temos por elas, é preciso conhecermos a nossa existência sem elas. É preciso nos esquecermos da importância que têm na nossa vida e dos pormenores únicos das cumplicidades que com elas construímos. É preciso apagarmos as pequenas memórias, os gestos, os sorrisos, é preciso que as suas vozes sejam apenas sons, é preciso esquecermo-nos do beijo, do gosto, do sabor que elas têm. É preciso convencermo-nos de que não o apreciamos. É preciso fazer viagens, solitárias, e tirar da cabeça, de uma vez por todas, que tudo pode voltar atrás. É preciso desistirmos delas e acreditar que é melhor assim. É preciso um processo. Que dentro de nós seja irreversível.
É preciso voltar-me a apaixonar-me todos os dias, por alguém que não sejas tu.
Preciso de voltar a ser eu, antes de ti. É preciso correr em passadas largas, sem olhar para trás, para outro sítio, para outras terras, para outras pessoas diferentes. É preciso fugir do sentimento. É preciso agarrar a razão. Escrevê-la num quadro, pendurá-la num espelho, para que me veja dentro dela, todos os dias.
Será preciso morrer e matar, e nascer novamente para que definitivamente eu deixe de te conhecer."
Quando finalmente se tinha convencido disso, apagado o seu cigarro e, com ele, a frágil chama da esperança de estar errada, o telefone tocou.
Amo-te. Mas isso, já sabes. Fico, ao fim do dia, à tua espera com o teu sorriso estampado nos meus pensamentos e isso, aquece-me o Inverno. Às vezes dou por mim a pensar que a vida é tão pequena, mas tão pequenina e tão fugaz, que um dia, sem eu dar por ela, arruma as trouxas e vai-se embora. Todo o meu corpo se gela, quando penso nisso. Aí, não poderei guardar o teu sorriso, e as covinhas no rosto que vêm com ele, o olhar terno, as mãos seguras. Aí, tu e eu, estaremos noutro mundo e não poderemos mais contar gotas de chuva à janela. Aí não te vou ter dito tudo aquilo que te devia ter dito. Amo-te, amo-te, amo-te. Mas isso, tu já sabes. Por isso não preciso dizer. E corta-me o coração saber que, um dia, isto acaba e eu não vou poder mais sentir um frio na barriga, ou as pernas a tremer quando estás para chegar. Um dia, não vou mais perder-me de tudo e abandonar-me aos teus braços, que foram feitos à minha medida. Só de imaginar esse dia, apetece-me parar o mundo inteiro, manifestar-me contra a vida, com cartazes ao alto e crachás ao peito. Atirar-lhe coisas à cara pois, se ela não é para durar sempre, então, nem devia mostrar-nos o que é uma vida de amor, para começar. Um dia. Um dia, só espero que, quando formos ambos erva, água e pó, o sejamos ervas da mesma rama, gotas do mesmo mar, grãos da mesma cinza. Quando esse dia chegar, não vou precisar dizer que te amo, porque somos, um e outro, a mesma coisa. E quando uma pedra agitar a gota que és, tu agitarás a gota que sou. E nada mais vai ter importância, porque o universo somos nós e nós, um do outro. Meu amor. Como eu te amo. Mas isso, tu já sabes.
Wednesday, April 11, 2012
Doce. Leve. Suave. Macio, como uma pena que seduz e arrepia. Morno, como o sol na pele numa tarde de primavera. Embriagante e ardente, como um licor velho que se sente nos lábios e queima todo o corpo à sua passagem. Envolvente, como um camisola de lã numa noite fresca de verão.
As mãos tremiam-lhe mesmo dentro dos bolsos do blusão só porque caminhavam a centímetros de distância. Os prédios que os envolviam, e os juntavam a cada passo mais um pouco, sopravam-lhe o perfume dele e ela sentia as pernas falharem-lhe.
De vez em quando, admirava-o na diagonal, quando ele não estava a reparar e, incrédula, não entendia como tinham chegado ali, em tão pouco tempo. Não. Decididamente já não tinha escolha. Já não podia, já não queria recuar.
Sorrateiramente, ele deslizou a sua mão para o bolso do blusão dela roubando, dedo a dedo, a mão dela para o aconchego da sua. Foi assolada por um arrepio e, fugindo dos seus olhos, libertou um sorriso cúmplice. Caminharam de mãos dadas, trocando conversas ligeiras, histórias antigas e gargalhadas até ao destino. Não queria que chegasse ao fim aquele minuto que passou entre o princípio e o fim da noite. Reparava nos pormenores dele que subitamente ganhavam importância, o sorriso, tímido apesar da firmeza, o olhar, curioso, atento, a cabeça ligeiramente flectida para a ouvir, as pernas, arqueadas do desporto, uma cicatriz no braço, que ainda não tinha conseguido apurar, a pausa, durante dois segundos entre a última palavra dela e a primeira dele. O entusiasmo à chegada. O abraço, na despedida. O cheiro dele que lhe ficava nas mãos, durante horas depois de o deixar.
Foi a conduzir para casa, com um sorriso nos lábios e um calor no peito. Estava apaixonada.
Tuesday, April 10, 2012
Terminaram oficialmente as sextas-feiras. Desta vez para mim. Acho absurdo o peso de andar a puxar um carro de bois pesados e teimosos que nada fazem para se mexer. What’s the point? Desisto, não quero mais. E desisto com a plena consciência que fiz tudo o que podia. Ninguém teve a iniciativa, que levei ao exagero durante tanto tempo, por mim. Isso diz tudo. Já não estou disposta a reconsiderar. Já nem vontade tenho. Já não me deixa um sorriso nos lábios ou entusiasmo no peito. Hoje abateu-se sobre mim a clarividência de todos os acontecimentos das últimas semanas, nos últimos meses. Deixou-me um sabor azedo na boca. Acho que já não sinto saudades, nem nostalgia. Dei tanto de mim que fiquei… vazia.
Fui.
Sunday, April 8, 2012
Faltavam precisamente duas horas para o encontro. Estava nervosa. Programava ao minuto as horas a que tinha de entrar no banho para ter tempo, todo o tempo que precisava, para se arranjar com calma, como queria, para não falhar absolutamente nada. Secar o cabelo, metade secador, a outra metade ao natural. Nem mais, nem menos. O creme do rosto. O leite corporal para bebé. A maquilhagem. Tinha estendido sobre a cama a roupa que ia usar. Duas alternativas. Estava nervosa. Estupidamente nervosa. Estaria a fazer o acertado? Mais que nunca faltava-lhe o conselho do melhor amigo. Tentava acalmar-se com um cálice de Porto. Navegar na internet, rabiscar algumas palavras que lhe saiam todas ao contrário. Uma música. Essa não, outra, também não. Demasiado electro, demasiado deprimente, demasiado comercial. Não conseguia escolher. O tempo passava devagar. Ainda ia a tempo de arranjar uma desculpa para se esquivar ao encontro. Era tão mais fácil. Mas era traída pela vontade que, de alguma forma, vencia a cobardia. Já não estava com ele, em presença, há uns dias. Aquele estranho que acabara de entrar na sua vida. Havia pormenores dele que já não se recordava com tanta clareza. A voz. As mãos. O que permanecia forte na sua memória, era a sensação do conjunto. E ao pensar nisso, sentia um nervoso miudinho no estômago. Sem razão nenhuma.
Quando voltou a consultar o relógio, já tinha perdido uma hora.
Decidiu antecipar o banho e aproveitar a água quente para relaxar a sua ansiedade.
Há momentos em que é preciso criar um fosso entre as pessoas para que todos consigam respirar ao mesmo ritmo. A minha distância radical teve exactamente esse objectivo, que todos conseguissem respirar sem roubar o oxigénio de ninguém. Foi o meu tempo. Quando decidi lançar uma corda e voltar a unir as duas margens do rio, fi-lo acreditando que se podiam retomar as passagens. Não sou de vidro nem tão frágil quanto se possa pensar. Estou disponível para receber a amizade sem desconfortos, sem mágoas. O que passou, passou.
Às vezes existem palavras baralhadas, lidas do avesso, mal entendidos que podem ter consequências irrecuperáveis. Acho que há "conversas" que podem ser úteis, nessas circunstâncias. Não precisam ser pesadas, apenas uma tarde à beira-mar. Para que as sextas-feiras não sejam um sítio estranho, onde andamos todos em bicos de pés, sem qualquer necessidade. Faz-me falta essa amizade livre e espontânea que tivémos e que acredito que ainda possamos recuperar. Não quero perder essa amizade em que podemos contar absolutamente tudo um ao outro. Eu quero saber de ti e que tu saibas de mim também. Se achasse que não era possível, que não estaria preparada, não teria lançado essa corda.
Tenho imensa pena que receies que me vou partir ao receber a tua felicidade. Nada me dará mais satisfação do que saber-te feliz, saber que derrotaste as tuas inseguranças.
Se preferires, eu mantenho-me longe. Mas não desistas das pessoas que te adoram, por mim. Ninguém merece esse custo.
Saturday, April 7, 2012
Sem grande vontade, aceitou um dos convites habituais para sair. Vestiu-se a arranjou-se medianamente, deu dois tragos no seu copo de vinho, enquanto fumava um cigarro e saiu.
Enquanto conduzia, foi assaltada por aquela música na rádio. Aquela. Sentiu um baque no peito. Quando ia mudar de posto, trocou as voltas aos dedos, e subiu o volume, abriu os vidros do carro e deixou a brisa fresca tocar-lhe o rosto. Durante dois segundos, fechou os olhos. E estava naquele sítio novamente. Todos riam às gargalhadas, batiam os copos uns contra os outros inventando brindes sem sentido, trocavam-se olhares e impunham-se abraços, uns mais significativos que outros, numa altura em que a espontaneidade ainda não tinha preço e a companhia era justamente a necessária. Acordava com uma carícia no rosto e um olhar caloroso sobre si.
A música terminou e o carro chegou ao seu destino. Apressou o passo, por estar atrasada, convencendo-se que se ia divertir, concentrando-na na expressão que ia usar para não mostrar indiferença. Cumprimentou todos com beijos e os sorrisos mais abertos que pode. Demasiada gente, demasiado fumo, ninguém. Olhava, insistentemente para a porta, procurando ser surpreendida pelo estranho e castigando-se, logo de seguida, pela sua ingenuidade. Tinha de afastar os pensamentos, era essa a sua determinação. Consultava o relógio somando as meias horas que ainda lhe faltavam para se poder retirar sem constrangimentos. Não conseguia evitar, não estava ali bem, aquilo já não lhe era suficiente. Vários homens, atraentes, cruzavam a sua passagem tentando dar nas vistas, a quem ela oferecia um olhar longo, isento de significado. Não se interessava por conhecer outros homens, essa ansiedade de "sentir" já tinha sido ultrapassada.
Quando chegou a altura, bebeu o resto do líquido amargo duma só vez, segurando o casaco com a outra mão. Despediu-se subtilmente de toda a gente com um aceno já à distância, procurando as chaves do carro dentro da mala. Reparou na luz que brilhava no visor do seu telemóvel. O icon das mensagens imobilizou-a.
"I'm not going anywhere".
Thursday, April 5, 2012
A noite já tentava entrar pela madrugada. O silêncio era intercalado pela cantilena monocórdica da chuva. A temperatura, mais amena lá dentro, vaporizava os vidros da janela e ela, com a cabeça pendida sobre eles, desenhava letras sem sentido, só para manter os dedos ocupados. Queria apagar os pensamentos que falavam mais alto do que a chuva.
Ele já conhecia a sua história, as suas limitações, a sua indisponibilidade, os seus anti-sentimentos, porque continuaria a insistir? Ela já tinha assumido a decisão de não querer amor, pelo menos durante uns tempos, mas uma coisa era não procurá-lo, outra bem diferente era mandá-lo embora quando lhe este lhe bate à porta.
Ela não o conhece, é um estranho, nem entendia porque razão, ultimamente, passava tanto tempo a pensar nele. Será que devia terminantemente afastá-lo? Ou talvez dar-lhe uma oportunidade? Ou pior, será que ainda estaria a tempo de fazer essa escolha?
Tinha medo, essa foi a única mentira dela. Tinha teorias para lidar com qualquer situação emocional, mas para ele, para a constante surpresa, para as palavras improváveis, para os gestos imprevistos, para os sorrisos desconcertantes, não tinha definido nenhum procedimento. Pensava nele. Vontade crescia de estar na sua presença. Começava a conhecê-lo, a conquistar a sua intimidade. A sentir-se atraída pela sua pele. Pelo abraço forte no qual imaginava diversas vezes imergir. Não, não podia ser. Não o queria. Ia correr mal. Quando o amor se apagasse ia voltar o nó no estômago, o aperto sufocante no peito, as noite intermináveis sozinha, o golpe da rejeição, os silêncios, a indiferença por toda a gente e até por si, a raiva, o ódio, a esperança, de novo o amor, e depois nova decepção, de volta a raiva, o ódio e, considerável tempo depois.. a saudade, a distância. Novamente em círculos. Não queria passar por isso novamente.
Um som vibrante, interrompeu abruptamente os seus pensamentos com uma mensagem dele. E agora?
Às vezes acho que não tenho lugar neste mundo. O ser humano, dotado do seu privilégio resultante de milénios da lei de Darwin, no que toca à racionalidade e à emoção, teve o condão de conseguir inúmeras maravilhas. Mas também as piores barbaridades para com o seu próximo, o seu igual, o seu irmão. A ambição, quando desmesurada, cega e corrompe. Especialmente, os de espírito fraco, os de carácter volátil, os de egoísmo crónico. E eu não me adapto a este modus operandi. Nem quero.
Cada vez mais sou assolada pelo ímpeto da mudança, da fuga. De retornar às raízes, de cultivar a terra e dela obter a minha subsistência.
Quero uma cabana, árvores e terra ao meu redor, um rebanho de filhos a puxarem-me pela saia, histórias ao adormecer, cultivar esperança e ética nos olhos brilhantes e ingénuos de quem tem tudo para conhecer, todas as possibilidades de fazerem a diferença.
Quero uma vida nova, que esta já não me serve. Quero uma fogueira na praia. Um abraço de quem me ama. Quero o beijo de quem me admira. Quero as minhas pessoas de volta.
Pois eu recuso-me a ser isto para me integrar nesta violência que é o mundo, e a gente que orienta a sua evolução.
Percorro os corredores e há um silêncio mortífero. Imagino várias vozes que se denunciam por movimentos de lábios mudos. Há nomes defuntos que ainda são evocados por pessoas que ainda os têm recentes na memória.
Pouco permaneceu intacto nesta revolução. Muros têm de ser reestabelecidos, erigidos de novo do chão. Novas rotinas gritam por serem geradas. Novos objectivos têm de ser estabelecidos, o mais ambiciosos possível para nos manter ocupados por bastante tempo.
Tudo isto faz parte de um processo. O único processo possível.
Ainda assim. Precisava de um abraço prolongado onde pudesse afogar um bocadinho esta saudade.
Acho que está na altura de regressar. Afinal esta é a minha casa, uma vez um amigo disse-me que não se abandona a nossa casa. E eu tenho saudades da minha casa.
Hoje o meu sobrinho, ao beijar-me, disse-me, tia, gosto de ti. Aos três anos de existência fala-se dos sentimentos sem medos, o que acontece a essa naturalidade quando crescemos? Teremos medo de os assumir? Empreendemos todos os nossos esforços em eliminá-los, porque sentir contraria a nossa razão, deita por terra as mais bem fundamentadas teorias, e ninguém quer ficar sem chão.
Ontem, um estranho disse-me algo parecido, eu sei que não vais acreditar, não vais confiar, mas gosto mesmo de ti, não preciso saber mais nada do que sei, e amanhã não vou gostar menos de ti. Mas gosto. E apanhou-me na curva.
Como é que se fica indiferente a um "gosto de ti"? Por mais irracionais que sejam, sem sentido, sem fundamento, sem sustentação, os sentimentos são o que são, e no instante em que emergem de alguém, são a maior demonstração de força que podemos ter o privilégio de observar. Partilhados sem medos, segundas intenções, sem querer nada de volta a não ser mostrar que alguém tem significado para alguém. No meio de gente estranha, de expressões indiferentes, sorrisos vazios, olhares inertes, gente bonita, gente feia, gente assim assim, há pessoas especiais.
Um gosto de ti, dá-lo e recebê-lo é a coisa mais fantástica que podemos fazer por alguém ou por nós.
Um estranho não voltará a ser estranho. Obrigada. Ensinaste-me algo importantíssimo. Os sentimentos não são nossos, são das pessoas por quais os nutrimos. Quero aprender mais, tudo, devagarinho, como se tivesse acabado de nascer. Como se tivesse outra vez, três anos de idade.