Monday, April 16, 2012

Tu


Escrever sobre ti é dissecar uma tela de Picasso. É dizer que Deus tem pele e tem carne e que se lhe pode tocar. É descrever, falando, ao que sabe um figo maduro. O prazer irreproduzível. Falar sobre ti é adocicar o imenso Oceano, que escorre pelo rosto dos namorados. E eu preciso de sal, quase tanto como do sabor do figo maduro. Menos do que preciso de uma tela de Picasso. Medir a tua dimensão é contar as estrelas que salpicam o céu. E tentar apagá-las num sopro. Não sei escrever sobre o que não tem limite, por isso ignoro o Universo, atrás de mim, por isso mergulho no Oceano e não diviso o seu fundo. Por isso, a música liberta-me as lágrimas que o imenso Oceano salgou. Por isso seguro num punhado de areia e me delicio, à sua fuga, por entre os meus dedos.
Por isso, não tenho ilusões sobre onde chegas. Não vejo mais do que és. És mais do que as pessoas vêem. E escrever sobre ti seria capturar uma imagem impossível porque, nesse preciso instante, já teria escapado para outro qualquer lugar.


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