A noite já tentava entrar pela madrugada. O silêncio era intercalado pela cantilena monocórdica da chuva. A temperatura, mais amena lá dentro, vaporizava os vidros da janela e ela, com a cabeça pendida sobre eles, desenhava letras sem sentido, só para manter os dedos ocupados. Queria apagar os pensamentos que falavam mais alto do que a chuva.
Ele já conhecia a sua história, as suas limitações, a sua indisponibilidade, os seus anti-sentimentos, porque continuaria a insistir? Ela já tinha assumido a decisão de não querer amor, pelo menos durante uns tempos, mas uma coisa era não procurá-lo, outra bem diferente era mandá-lo embora quando lhe este lhe bate à porta.
Ela não o conhece, é um estranho, nem entendia porque razão, ultimamente, passava tanto tempo a pensar nele. Será que devia terminantemente afastá-lo? Ou talvez dar-lhe uma oportunidade? Ou pior, será que ainda estaria a tempo de fazer essa escolha?
Tinha medo, essa foi a única mentira dela. Tinha teorias para lidar com qualquer situação emocional, mas para ele, para a constante surpresa, para as palavras improváveis, para os gestos imprevistos, para os sorrisos desconcertantes, não tinha definido nenhum procedimento. Pensava nele. Vontade crescia de estar na sua presença. Começava a conhecê-lo, a conquistar a sua intimidade. A sentir-se atraída pela sua pele. Pelo abraço forte no qual imaginava diversas vezes imergir. Não, não podia ser. Não o queria. Ia correr mal. Quando o amor se apagasse ia voltar o nó no estômago, o aperto sufocante no peito, as noite intermináveis sozinha, o golpe da rejeição, os silêncios, a indiferença por toda a gente e até por si, a raiva, o ódio, a esperança, de novo o amor, e depois nova decepção, de volta a raiva, o ódio e, considerável tempo depois.. a saudade, a distância. Novamente em círculos. Não queria passar por isso novamente.
Um som vibrante, interrompeu abruptamente os seus pensamentos com uma mensagem dele. E agora?
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