Friday, April 13, 2012

Aniversário

Está para breve o teu aniversário. Não pensei que o fosse recordar, não sem a ajuda do calendário do facebook, ou do lembrete da mãe. Mas hoje, quando acordei, não me perguntes porquê, lembrei-me que esse dia estava para breve. Passam dias, semanas, meses em que não gasto um minuto a lembrar-me de ti. Ou então que o uso para tentar não me lembrar de ti. Que tu existes e tens, inevitavelmente, importância. 

É mais um ano que passa na tua vida, é mais esse tempo que te devia ter amadurecido, é um ano que perdes na tua longevidade, é mais um ano que te aproxima do nada. A distância isenta-me de acompanhar as rugas na tua expressão dura, ou as manchas nessa pele gasta, a cor que vai abandonando os teus cabelos ou as auréolas azul-acinzentadas que vão limitando as tuas íris. Não o vi gradualmente acontecer e causa-me estranheza cada vez que te encontro. Tenho dificuldade em reconhecer aquilo que, de ti, tenho algures na memória, nos momentos em que a convivência era continuada. 


Gostava de te desassociar do desconforto e da decepção que me invade com a tua presença. Mas não consigo e acho que ainda não quero. Preciso agarrar-me durante mais um bocadinho a esta raiva que me debilita e, ao mesmo tempo, me dá uma espécie de alento. 

Só por acaso vivemos no mesmo planeta, pois quem nos ouve conversar sobre o nosso mundo, não acredita que o meu e o teu são o mesmo. Sempre foi o nosso desencontro, a perspectiva do mundo, como o vemos e como queremos que seja a nossa passagem por ele. Mas, convenhamos, sempre foste irredutível e eu, desde criança que sei bem o que sou e quero, ninguém vai mudar ninguém. Chegamos sempre a esta encruzilhada intransponível a partir da qual cada um segue a sua estrada. As nossas conversas terminam sempre, mas sempre, numa disputa à que nós, por alguma consideração pelo incómodo da plateia, damos fim, longe de consensual, eu com um revirar de olhos, e tu, nem sequer disfarçando que eu te desapontei. Mais uma vez. Sabes que mais? Tu também me desapontaste. E tu, de todas as pessoas, não tinhas a liberdade ou ligeireza de o fazer. Devias ter estado sempre lá. Não me podias ter falhado. Eu estava a crescer, a errar, a aprender com isso, e tu? O que raio estavas tu a fazer? A marcar uma posição? A ensinar pela dor ou pela indiferença? Repara bem onde isso nos trouxe. 

As minhas limitações são as tuas limitações. Diante as quais te vi imóvel, sem poder de resolução, a virar costas e partir para outra, a deixar o problema, como um menino, nos braços de alguém. Que não tu. Tento culpar a minha vida, e as opções que nela fui riscando, das minhas incapacidades emocionais, dizer que foi esta ou aquela paixão que me abalaram, que me traumatizaram, que me fecharam os braços quando, no fundo, sei que foste tu. Foi o que te vi fazer, não ficaste com a mulher mais fantástica que já te passou pelos olhos e tu, sem saber ler nem escrever, conseguiste que ela olhasse para ti, já agradeceste aos céus por teres tido uma deusa? Já te penitenciaste o suficiente por tê-la deixado partir? Não. O que quer que faças não será suficiente. Não para ela. Não para mim. 

Por tudo isto, quando vejo os traços da idade imporem-se no teu rosto, penso que o tempo corre a teu desfavor, terás noção de tudo o que ainda tens para remediar? 

Talvez daqui a uns tempos, quando eu for tu, e tu fores outra pessoa, eu tenha conseguido a paz para relevar tudo aquilo porque te culpo, talvez consiga gostar mais de ti do que aquilo que não gosto. Talvez. Um dia vou tomar café contigo e dizer-te, foste uma merda, mas não soubeste ser melhor e eu gosto de ti, apesar disso. Porque mesmo que não nos conheçamos, não nos falemos, não nos contactemos, nós somos o mesmo, feitos da mesma massa, do mesmo sal e, se tu assim não o tivesses permitido, hoje não teria acordado de manhã a pensar em ti.


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