Friday, April 13, 2012

Um problema. Tinha surgido e obrigara-o a desmarcar o encontro. Tão simples quanto isso. Ela ficara a olhar para o visor do telemóvel, a ler aquela frase várias vezes, a colocar vírgulas onde estas não existiam, a substituir palavras por sinónimos, a imaginá-lo a escrevê-las e a sua expressão a fazê-lo. Tentava ser ele e supor um problema que a fizesse desmarcar um encontro que seria, como os anteriores, tão cheio de emoções. Não, castigava-se, e atirava o telemóvel para cima do sofá. Só para ir buscá-lo novamente. E reler as palavras que já tinha dissecado de todas as formas possíveis. 

E se ele tivesse perdido o interesse e usado uma desculpa qualquer para a evitar? E se tivesse tido uma proposta mais interessante que a sua? Pior, e se tivesse reencontrado a namorada antiga e repescado a paixão?

Lembrava-se das conversas dos amigos que lhe diziam que as mulheres complicam as coisas demasiado as coisas e que quando um homem quer realmente estar com uma mulher, não há desculpas que o previnam. Era isso, só podia ser isso. Ele já não tinha vontade de a ver. E os últimos encontros? Teriam sido um logro, ou mal interpretados por si? Não podia ser, a energia do envolvimento é visível a léguas e transmissível pelo ar. E ela tinha-a, definitivamente, sentido. Não se podia ter enganado. Não tanto. De repente, sentiu-se ludibriada. Tinha-o afastado tantas, mas tantas vezes, porque motivo tinha ele insistido tanto, se era apenas um jogo? Quando finalmente ela começava a ceder.. ele perdia o interesse? Não o tomava por um desses dandys. Que tonta, pensava, que idiota. Já tinha experiência, já tinha vivido tantas paixões e desamores, tinha a obrigação de saber melhor. O baque que sentia no peito era sucumbido apenas pela auto-decepção, pela rejeição, pela situação onde a sua própria estupidez e ingenuidade a tinha colocado. 

Em todos os cenários que projectara, só via uma solução. Tinha de o eliminar definitiva e rapidamente da sua vida. E convencia-se disso enquanto entoava uma lenga lenga em voz baixa, inspirada por amigos, fumando um cigarro à janela e mordendo o lábio para não chorar: 

"É preciso matar as pessoas. É preciso deitar fora o amor que temos por elas, é preciso conhecermos a nossa existência sem elas. É preciso nos esquecermos da importância que têm na nossa vida e dos pormenores únicos das cumplicidades que com elas construímos. É preciso apagarmos as pequenas memórias, os gestos, os sorrisos, é preciso que as suas vozes sejam apenas sons, é preciso esquecermo-nos do beijo, do gosto, do sabor que elas têm. É preciso convencermo-nos de que não o apreciamos. É preciso fazer viagens, solitárias, e tirar da cabeça, de uma vez por todas, que tudo pode voltar atrás. É preciso desistirmos delas e acreditar que é melhor assim. É preciso um processo. Que dentro de nós seja irreversível. 

É preciso voltar-me a apaixonar-me todos os dias, por alguém que não sejas tu. 

Preciso de voltar a ser eu, antes de ti. É preciso correr em passadas largas, sem olhar para trás, para outro sítio, para outras terras, para outras pessoas diferentes. É preciso fugir do sentimento. É preciso agarrar a razão. Escrevê-la num quadro, pendurá-la num espelho, para que me veja dentro dela, todos os dias. 

Será preciso morrer e matar, e nascer novamente para que definitivamente eu deixe de te conhecer."

Quando finalmente se tinha convencido disso, apagado o seu cigarro e, com ele, a frágil chama da esperança de estar errada, o telefone tocou. 

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