Thursday, April 19, 2012

Pássaro sem asas


Olha o espelho e mergulha bem lá dentro. As coisas que nele vês não são reais. As coisas verdadeiras não têm reflexo. O teu sorriso, onde está? Alguma vez será o mesmo?
Onde perdeste esse amor, pequeno pássaro? Onde o deixaste?
Olha para ti e sorri. As palavras não valem nada. Especialmente as dos outros. As palavras não te podem ferir. Queres voar e não podes porque o teu destino é um caminho irreversível.
Sossega o teu coração, pequenino pássaro. Para onde queres voar? Que cores existem nesse teu ninho?
Permaneces parado nesse teu parapeito esperando que alguém te salve. Mas ninguém repara em ti. E ninguém salva ninguém. Especialmente um passarinho tão pequeno como tu.
Não gostas mais desse teu parapeito, não é? Nem mesmo o espelho já te diz a verdade. Ninguém te vê, nem o teu espelho. Perguntas-te para onde foi a tua voz. E já nem te recordas como era bela. Queres ficar mais um instante, mas não tens razões. Ninguém quer que fiques, apenas não querem que te vás.
Penas de ouro. Histórias de um mundo azul, numa vida antiga. Ainda te lembras? Esquece. Ninguém tem tempo para te ouvir.
Olhar tristonho. Pássaro sem asas, para onde queres voar? Esse sítio é perigoso. O paraíso não existe. Só nos teus olhos cor de rosa.
Inspiras fundo e, sem querer e, só por um instante, parece-te sentir um perfume a doce muito antigo e familiar. Procuras o espelho e ele já lá não está...
Dás um passo sobre as tuas curtas passas e esqueces-te, intencionalmente, que já não tens asas. Nem nunca tiveste, não é passarinho? O mundo lá em baixo pequenino, cresce à tua velocidade e tu decides quando esta pára. A meio caminho, estacaste-la. Pairaste por uns segundos, a observar as luzes em teu redor, os espelhos que, de repente, se erguem por todos os lados. Finalmente, o teu reflexo, a tua imagem, cheias de coisas verdadeiras das quais já não te recordavas. Finalmente a tua voz, bela, bela, bela...
Finalmente, tu.

No comments:

Post a Comment