Sem grande vontade, aceitou um dos convites habituais para sair. Vestiu-se a arranjou-se medianamente, deu dois tragos no seu copo de vinho, enquanto fumava um cigarro e saiu.
Enquanto conduzia, foi assaltada por aquela música na rádio. Aquela. Sentiu um baque no peito. Quando ia mudar de posto, trocou as voltas aos dedos, e subiu o volume, abriu os vidros do carro e deixou a brisa fresca tocar-lhe o rosto. Durante dois segundos, fechou os olhos. E estava naquele sítio novamente. Todos riam às gargalhadas, batiam os copos uns contra os outros inventando brindes sem sentido, trocavam-se olhares e impunham-se abraços, uns mais significativos que outros, numa altura em que a espontaneidade ainda não tinha preço e a companhia era justamente a necessária. Acordava com uma carícia no rosto e um olhar caloroso sobre si.
A música terminou e o carro chegou ao seu destino. Apressou o passo, por estar atrasada, convencendo-se que se ia divertir, concentrando-na na expressão que ia usar para não mostrar indiferença. Cumprimentou todos com beijos e os sorrisos mais abertos que pode. Demasiada gente, demasiado fumo, ninguém. Olhava, insistentemente para a porta, procurando ser surpreendida pelo estranho e castigando-se, logo de seguida, pela sua ingenuidade. Tinha de afastar os pensamentos, era essa a sua determinação. Consultava o relógio somando as meias horas que ainda lhe faltavam para se poder retirar sem constrangimentos. Não conseguia evitar, não estava ali bem, aquilo já não lhe era suficiente. Vários homens, atraentes, cruzavam a sua passagem tentando dar nas vistas, a quem ela oferecia um olhar longo, isento de significado. Não se interessava por conhecer outros homens, essa ansiedade de "sentir" já tinha sido ultrapassada.
Quando chegou a altura, bebeu o resto do líquido amargo duma só vez, segurando o casaco com a outra mão. Despediu-se subtilmente de toda a gente com um aceno já à distância, procurando as chaves do carro dentro da mala. Reparou na luz que brilhava no visor do seu telemóvel. O icon das mensagens imobilizou-a.
"I'm not going anywhere".
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