Queria escrever sobre ele. Porque não me diz tudo. Fala por meias palavras, esconde, empurrando para si, como às fraldas de uma camisa para dentro das calças, os segredos que lhe priva liberdade.
Tomamos café juntos. Há muito tempo que não o fazemos. Há tempo demais. Há coisas que se perdem, assuntos que não se partilham. E que importante é partilhar essas conversas sobre nada. Fico a soprar o café queimado, que me tira o gosto das coisas, mexendo o líquido com uma colher minúscula. Enquanto isso ele, de marcas profundas nos olhos, controla a vontade de rir e mede as palavras com que me diz que eu tenho de ser melhor. Eu aceito tudo dele, não de outra pessoa, mas dele. Tenho um impulso enorme em contar-lhe todas as coisas. Já dei comigo a confessar-lhe as minhas aventuras de menina, coisas que guardo só para mim. Faz-me bem a aprovação dele. Não preciso, mas faz-me bem. Não sei porquê. E ele, sem querer, protege-me. Confia em mim e cuida que eu vou ser grande e fazer grandes coisas.
Queria escrever sobre as histórias dele. Deve ter mais de mil. Tenho uma curiosidade palpitante em saber como ele vê o mundo. Porque é o como é, hoje. De vez em quando desenrola um bocadinho do fio que emaranha a sua teia. Para depois, voltar a enleá-la. E retorna ao silêncio.
Gosto destas amizades tardias. Inesperadas.
No comments:
Post a Comment