Thursday, April 19, 2012

Ser outra coisa

E, numa dessas vezes, tenho vontade de cortar o meu cabelo, de me embrulhar numa seda transparente, usar sandálias, construir uma cabana perdida na montanha e esquecer a cidade. Não usar palavras para comunicar, tenho rosto e olhar, tenho o tacto e todos os outros sentidos a meu favor. Queria esquecer o tempo, sentada num tronco velho no meio da floresta, parar, escutar o silêncio da Terra. Deitar-me sob as folhas secas, ouvi-las estalar sob o meu peso, deixar o vento roçagar a seda pelo meu corpo. Passear de cabeça nas nuvens e olhos fechados, palmas abertas rasando a vegetação alta. Sentir o cheiro de cada uma das flores. Mergulhar nua num lago protegido entre as árvores. Secar, estendida sobre uma rocha macia, ao sol. Correr, sofregamente, até deixar de sentir as pernas. Sentir frio, calor e frio outra vez. Deixar chover violentamente sobre mim. Lavar o sal do meu corpo. Não ter um mílimetro seco da pele. Ser surpeendida pelo cativeiro intransponível dos braços dele. E ele, cortar lenha para nos aquecermos de noite. Repousar a fadiga no seu colo, deitar a cabeça sobre o seu peito gigante. Não ter que dizer uma palavra. Nem ter que ouvir uma de volta. A minha mão ser apertada pela dele e ser esse o gesto da nossa união. Ser eterna no seu sorriso e ele, a essência do meu cheiro. Fundir-me no seu beijo.

Às vezes quero ser outra. Às vezes...

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