Friday, December 28, 2012

Ode to my skin

E, para já, uma pergunta. Como sobrevivíamos antes, como testemunhávamos a clamada felicidade?

Hoje já não é possível. Tudo está mais à mão. Tudo, aparentemente, tão perto.
Um toque virtual de emoção. É tudo quanto basta para nos altear o espírito. Um carinho à distância, uma intenção electrónica de beijo, uma imagem numa praça pública, um comentário para mostrarmos que seguimos atentos àquela e a outras vidas. Procuramos ali respostas a perguntas que nunca saíram da algibeira, mas ainda sim, colhemos conclusões. E os afectos vão-nos deslizando pela pele, essa casca impermeável, vão-nos atingindo mesmo mesmo mesmo ao lado. Não queremos, não podemos, não há tempo, não há pachorra. Ninguém tem compromisso de sobra.
Um alerta num telemóvel que anuncia uma cifra de alguma coisa que só entendemos à superfície, agradecemos e respondemos na mesma letra sem significado. Porque tudo pode ser um pronúncio de um dia que virá a seguir ao outro, e depois a outro, onde aí sim, pode ser juntada uma voz, um rosto. Um carinho real. E nesta viagem entramos e cedemos porque, caso contrário, ficaríamos à deriva na maré. "A ver a vida passar". 
Dispam-nos a pele, apaguem-nos a cor, extraiam-nos a língua, capturem-nos o cheiro, desliguem todos os sons, transformá-mo-los obsoletos. 
Não se queixem da solidão, trouxe-mo-la a nós.
Desde que tenhamos os nossos gadgets estaremos juntos no deserto.
Parece que afinal nós não fazemos falta porque a nossa vida acontece-se a si própria. E o nosso único poder vai sendo moderar a forma como ela aparece aos outros. 


Foi isto que imaginámos para nós?

Sunday, December 23, 2012

Chego a casa, com mais um dia de trabalho no corpo, mais um dia que era para ter sido meu e já a pensar no que vem a seguir, que também vou deixar cair. Deixo cair o casaco em qualquer canto na expectativa de que ele encontre o seu caminho para o sítio certo, que eu já nem para isso estou. Mergulhar no trabalho, todos os dias, ininterruptamente, e não sentir com isso nenhuma espécie de ressentimento é talvez preocupante. Estou bem [cansada], forte [sem força nas pernas], animada [imune às emoções]. É antes de mais um refúgio de tudo aquilo que está lá fora, e para onde não quero ir. Se me concentrar, se me esforçar muito, se trabalhar bem nesse sentido, vou abolir todas as inconvenientes trapalhadas das coisas da alma e do coração que só servem para plantar sarilhos. Não sei se quero mais disso. Sei, não quero. 
Deixo-me levar por coisas pequeninas que me apanham desprevenida e para as quais, portanto, não tenho guarda. Essas que me elevam o espírito e me fazem gente outra vez e somente naqueles instantes. Mas o meu cinismo, esse, não arreda pé. Na última vez fiz questão de disparar para os passarinhos, e apagar as estrelinhas, desligar a música, furar os coraçõezinhos e toda essa palhaçada que apareciam a voar de todos os lados. 
Obrigo-me todos os dias a ter os pés na terra. E quando a vontade distrai, a saudade aperta e o desejo tenta, belisco o meu braço, mordo o lábio, puxo os cabelos, prendo-me à cadeira, elimino as comunicações, faço o pino de cabeça e tudo o mais que for preciso para contrariar a minha impulsividade, já não tenho tenho  lugar para ela. 

Thursday, December 13, 2012

One day

Ali e agora tudo parece muito (demasiado) próximo. Ela espreita sem qualquer direito por entre janelas entreabertas a vidas privadas. Não pode ser. Agora é real. 
E retrai-se num instinto reptiliano. 
Há que encontrar realidades que não ofendam, carinhos que não machuquem, acções que não destruam. Não há direito. Tudo o que vem depois disso é que terá de estar errado.
Tem de correr espontâneo o livre arbítrio do desejo, ele não pode ser feio ou inoportuno. Têm de se inventar racionalidades e pragmatismos que, no dia a dia, os proíbam de viajar em conjecturas.
Apenas querem ser amados. Querem ser acarinhados e admirados, compreendidos e observados como realmente são, belos, puros, livres. Querem essa beleza por outros olhos. 
Se o amor os cega para o mundo, então porquê é que um dia, um dia tão vulgar como outro qualquer, lhes clareia a visão para tudo o que os rodeia? E o que distingue  aquilo que querem, daquilo sem a qual não podem passar? Para ela, só pode ser a última. Mas a última não cabe neste mundo de obrigações, deveres, regras e horários, porque as coisas têm de dar jeito, ser práticas e ficar em caminho. Tão inconveniente é a paixão que a agendam para um dia mais livre.

Um dia essa paixão chega e eles estão preparados.

Um dia, não terão escolha. 

Sunday, December 9, 2012

uncalled for dream

Eu descalça, pés despidos sobre a areia gelada da praia. O meu casaco e o dele. A minha barriga gigante. Os movimentos impossíveis ao compasso do peso que o bebé interpunha entre cada passo e o seguinte que dava. Mão entrelaçada na dele. As ondas a rebentar logo ali e o som a chegar-nos tão atrasado. A mão firme e morna do pai sobre a minha barriga. Agachado à minha frente, sorria - o seu sorriso tímido e ligeiramente nervoso - e conversava com ele como se pudesse ver o seu rosto a sorrir-lhe. A cada quarto de hora perguntava-me se nós estávamos bem, aconchegando o casaco dele melhor sobre os meus ombros - mal me mexia com esse e o outro peso – massajando-me as costas e pescoço. E eu imensa (mente feliz), imaginava-o segurando-o nos seus braços. Emocionado, tonto, fora de si - já sabia que ia ser eu a má da fita, a impor regras e a ditar castigos, não me importava, deixá-lo-ia ser o herói, o amigo baril, aquele que contaria uma ou duas histórias para ensinar uma lição - olhar-me-ia sempre, e depois daquele tempo todo, com admiração e orgulho. Sei que o pai o iria adormecer nos seus braços apesar da minha insistência para ele aprender a fazê-lo sozinho. Sei que lhe daria doces às minhas escondidas quando ele não terminasse o jantar. Sei que ficariam os dois de castigo, porque o mais velho não deixaria o retrato de si passar por isso sozinho. Sei que iríamos divergir na alimentação e nas horas de deitar. E que em lugar das músicas infantis que eu escolhesse, iria acalmá-lo com as clássicas baladas dos anos 90. Sei que iria estimular as aventuras ao miúdo, mesmo que eu ficasse para morrer. E que era ele que iria ficar calmo nas quedas e incidentes, quando as minhas mãos não parassem de tremer. 

Mas sei que não iria resistir ao sorriso - tímido - do pai, ao seu aconchego. Que iria estar segura de acertarmos nas decisões mais importantes, nos valores de fundo. No respeito e no amor. Nas coisinhas pequeninas que nos teriam feito apaixonar um pelo outro. 


O subconsciente prega-nos partidas injustas. E apesar de tudo isto ser um panorama remoto, e às vezes um nadinha improvável, não estou preparada para ser menos do que isto. Gosto de me convencer, ingenuamente, que um dia me vou chegar a cansar de ter um projecto que realmente importe. 

Um dia, talvez (e apesar do que me possam dizer), vou ser a última e a primeira mulher, respectivamente, na vida de alguém.

Tuesday, December 4, 2012

Vamos assumir que as coisas são mesmo assim. Que devemos desistir. Que temos de desconstruir, tijolo a tijolo, a casa que já tinha alguma dimensão. Vamos deitar isto fora. Vamos matar as pessoas. Vou acreditar nas palavras que não se podem desdizer. Que não tenho o que é preciso para ser a última.

Lamento. As coisas boas - tão boas - não sobrevivem a isto. As palavras fazem mossa. Hoje é o dia em que eu decido não me por a jeito para estas amolgadelas. Fiz o luto.

E fecho a porta.


Wednesday, November 28, 2012

A justiça é um privilégio

Foi já tarde que eu percebi, por conta própria, que a sorte, ou a falta dela, não é uma regra de três simples. Há incógnitas nesta equação que nós não conhecemos, não entendemos e não controlamos. Há resultados que nem podemos questionar. Somos ignorantes. Pior. Somos insignificantemente pequeninos. 

Não é justo. 

Vivemos (com) as pessoas, crescemos com (nas) pessoas, amamo-las, fazemos delas nossas, reclamamos propriedade à amizade que nos oferecem. Tentamos e erramos com elas. Aprendemos. Rimos. Choramos juntos. 

Um dia, esses bocados de nós, esses rins, esses pulmões, essa linfa, esse oxigénio, é-nos subtraído. Nunca vamos estar preparados para isto. Nunca. 

Queremos egoisticamente que o tempo não siga, de dia em dia, para que ele não nos tire o que as memórias já imortalizaram. 

É esta revolta que me obriga a aqui vir nesta minha noite. Ainda guardo o ódio da doença que me roubou o TL. Roubou-me. As saudades das coisas boas não amenizam o ódio, a raiva, a impotência de não poder fazer nada. De assistir, incapaz, a despenhar-se à minha frente e as minhas mãos serem água e vento e areia, o meu grito surdo, os meus movimentos inúteis, a minha vontade ridícula. Quero muito acreditar que estás em paz, que já não dói. Mas eu sei que já doeu. Eu sei disso e não o posso mudar. Não posso esquecer. Que presenciaste a tua diluição na forma mais débil da tua existência. E disseste-mo. Palavras como lâminas que me estarão para sempre cravadas nos pulsos. “O que eu era e o que eu sou.. não quero que vejas no que tornei”. Chorar, tal como agora faço compulsivamente, já não ajuda. Vai-me sempre doer isto. Não te poder ter aliviado um bocadinho. Não te ter dito tantas coisas. Não te ter agradecido por todas as coisas bonitas que foste e fizeste. Ter seguido mais os teus conselhos. Não ter admirado mais a gigantesca massa de energia que era o teu ser. 

Essa praga em todo o lado. És demasiado jovem, não há direito. Vou negar-te, enfermidade. Nem que seja só para mim, vou recusar-me a acreditar que não tens critérios. Que não tens ponderação ou rigor. Cometeste um erro, tantos. Volta atrás em quem recaíste. Engana-te, reconhece a estupidez e retira o que fizeste. E à saída, deixa tudo no mesmo sítio. Não toques num só fio do seu cabelo. Proíbo-te. Ameaço-te com toda a vingança com que se o pode fazer. Vou vingar-me. Vou tentar-te e fazer tudo de errado, vou correr riscos, desleixar-me, aumentar as probabilidades, acabar com as escolhas saudáveis, fazer-te vir a mim, enfrentar-te nos olhos e dar-te uma sova. 

Já ninguém sabe como fugir de ti. Trocaste-nos todas as voltas. Odeio-te. Odeio-te, odeio-te. 

Odeio-te todos os dias.

Tuesday, November 27, 2012

again


Voltar ao ponto de partida. Parar. Respirar. Inspirar, reter o ar nos pulmões tanto quanto possível. Tanto quanto necessário para me poder agarrar a uma ideia, a uma memória, a uma emoção ficcionada por mim. E dói, um bocadinho, noutro bocadinho dá prazer, que o que queremos é o sangue a mexer. 

Adoro a sensação da paixão ou do engano de a sentir. Adoro o tremor nas pernas, as forças a se escapulirem, a melodia numa voz, o desconforto de um olhar, o peito a disparar, com um toque, apenas um toque, suave, ligeiro, ou apenas a ideia dele. Isso eu não largo. De me apaixonar todos os dias, em todos os minutos, apaixonar-me por qualquer grão de areia que não tem interesse nenhum para mais ninguém, a não ser para mim. Reconhecer e reivindicar para mim, as minudências que fazem de uma pessoa A pessoa e não qualquer outra. As coisinhas que me arremessam para outro lado, que deixam os meus interlocutores num monólogo, traços e borrões que juntos não conseguem constituir um desenho, alarvidades do destino, incongruências da razão. Apaixonar-me todos os dias, por coisas diferentes, apaixonar-me todos os dias mais um bocadinho, (re)apaixonar-me todos os dias pela mesma pessoa. 

Um dia o amor cresce, surge como flor da terra e nós não esperávamos.. Um dia... um dia chego lá. 

Um dia, as nuvens abrem-se, a janela, o sol, a luz da manhã, o peito enche-se novamente. 

Hoje tive o peito cheio, meia hora (ou foram cinco minutos?), ele há coincidências do camandro. Tudo se precipitou para que nada me faltasse, para o que me fizesse falta estivesse lá, tudo se configurou por iniciativa própria, eu incrédula, tudo arrumado, tudo no sítio, eu quieta, as coisas a virem até mim, imagine-se só. 


(disseste que eu estava mais crescida.. passaram dois anos e ainda vejo o meu reflexo nos teus olhos)

E ainda, no meio disto tudo, uma surpresa paralela, que boa surpresa, continuem a vir que eu continuo a receber. 


Olhos bonitos.




Saturday, November 3, 2012

Tinha prometido a mim mesma que não voltaria a percorrer  esta estrada. Mas ela surgiu à minha frente, mais sinuosa e estreita do que o caminho habitual, cheia de sinais de aviso, exclamações e bandeiras vermelhas. Fui por impulso, como habitual, fechando os olhos, franzindo a testa, caminhando a medo, às escuras, não tenho veículo para isto, pensei. E, ainda assim, fui. Quilómetros e quilómetros percorridos até um beco sem saída. 
Agora é percorrê-lo de volta para trás, agarrada à convicção de que, em breve, demore-se esse breve o que quiser, hei-de voltar a estar novamente nesse sítio seguro. Não quero mais disto. Vou deitar fora os impulsos e arrancar do peito esta infantil alegria de viver cada momento. 


Tuesday, October 9, 2012

Será que tenho menos assuntos sobre que escrever? Para onde emigrou aquele tropeção incontrolável de escalpelizar tudo?

Não mudou. Talvez não haja tanto sentido em tecer considerações à volta de factos. Factos são factos. Não  vale a pena forçar fundações em solo arenoso.
Demasiado cansada para isso.
I hit rock botom to many times (desculpem-me mas não gosto da tradução disto).
A responsabilidade foi sempre, mas sempre minha. To give, to give.
A purga foi, tem sido, está a ser, de suma relevância para o avanço do estado das coisas. Ainda não o visualizo, mas ainda creio que esteja algures ali à frente, quem sabe ao virar da esquina.
Por favor, sem lições de moral, sem frases feitas, menos lugares comuns.
É o processo. Da coisa. A coisa tem um processo. E eu estou nele.




Thursday, September 20, 2012

Road to nowhere

Oiço-te enquanto os meus olhos tentam fugir dos teus, procuro um poiso inofensivo onde os esconder, para que eles não me acusem. Ao longe, as palavras em perfeito antagonismo do que eu quero ouvir, palavras (que quero vazias, descabidas) caem em mim como calhaus, como um chuva de sapos, como um balde de água gelada, como um estalo na cara, um puxão de cabelos, um tropeção escadas abaixo, um monumental equívoco, como quiseres. E antes fosse um pontapé no estômago. Antes qualquer hematoma que eu pudesse evitar fazendo gelo. Insistindo. Mas não. Estás convicto e irredutível. Fechaste o peito e repeliste tudo o que ameaça abri-lo. O rosto muda, um sorriso que se alinha em recta, um olhar que se semicerra, glaciar, os gestos indiferentes, um discurso formal, uma postura indiferente. Não me consigo aproximar. Não deixas, não queres. 

Não posso fazer nada, não há sentido para isso. Quem te estragou? Quem foi que deixou esse dorido com gosto amargo na boca? Soubesse eu, dava-lhe uma lição, para aprender a não interferir na felicidade dos outros. Diz-me onde dói, que eu dou um beijo que faz passar. Prometo. 

Não posso fazer nada. Não posso ser mais do que eu. 

E assim sendo, tiro-te o chapéu e desejo-te sorte para o caminho.

Sunday, September 9, 2012

the weather is changing

Bem que senti o tempo a mudar, as nuvens altas a formarem-se, a ganharem peso e consistência, a descerem, a escurecerem, um vento, totalmente fora do contexto, a levantar-se. 
Do nada, um lembrete [malandro, sacana, vil] a indicar-me um aniversário. De uma pessoa que já não está cá. Da minha pessoa preferida. Daquela que me levaram sem pedir licença. Tento, todos os dias, não pensar nele. Na imensidão que ele era e que ainda acredito que seja, onde quer que ele esteja. 

Amigos convidam-me para sair, para a folia, para os copos, mensagens secas a criticarem-me a recusa. 
Festejar o quê? Não iria suportar os sorrisos, as gargalhadas, o mundo a continuar a girar quando.. quando.. ele não está já nele.. Odeio todos os que se atrevem a sorrir nesse dia. 

Tenho saudades tuas, meu querido. Puta da vida, da doença, da injustiça, odeio um Deus que o permite. Uma pergunta que jamais terá resposta (porquê? porquê? porquê?), nem esse conforto a religião nos concede. 

Ao deixar a minha mãe em casa, reparo nos seus olhos brilhantes. Quer que a leve comigo para casa - não quero morrer sozinha, juras que não deixas a mãe morrer sozinha? - e eu não tenho resposta, não tenho coração para isto. Partiu-se nesse instante. Ela nunca me negaria este pedido. Largava tudo e vinha a correr em meu auxílio. A culpa de não lhe poder atender a este favor, vai morar sempre comigo, essa sim. 

Não entendo esta história irónica que todos os dias me troca as voltas.


Saturday, September 1, 2012

hands tied

Mesmo nos dias de sol há tempestades. Há raios e coriscos que não vêm só do céu, mas de absolutamente todas as direcções. O que fazer? Fugir? Abrigarmo-nos o melhor que pudermos e esperar que passe?
Não há previsão possível. A mais ligeira brisa de verão pode desencadear a pior das tormentas. Tão impotente. Tão irrelevante. Tão inútil a minha raiva, as minhas lágrimas, o meu desespero. Nem tenho a quem odiar, não tenho um botão que desligue tudo o que me faz sentir medo. E o meu pior medo é tudo o que não tem a ver comigo. É uma batalha condenada, mas apenas sei que a não posso perder, não posso baixar os braços, não consigo viver com o peso do "e se" na minha consciência.
E tomo como refúgio os meus filmes, as suas histórias patéticas que alguém inventou para me fazer rir ou chorar. E tornei-me tão fácil no riso, dou-o sem pedido ao desbarato. Já as lágrimas, nem por dinheiro. Deixo-as cair só quando me atinge uma emoção tão violenta que todo o meu corpo se revolta e manifesta. E o meu corpo está ainda a milhas do meu controlo. Ainda.
É escusado. Não posso salvar ninguém que não quer ser salvo. Nem a mim mesma. 
A puta da ironia. 
Se eu soubesse que ser crescida era assim, teria ficado para sempre no país das maravilhas. 


Friday, August 31, 2012

just another sunny day

A areia estava tórrida, o mar gelado. Havia menos toalhas estendidas, menos crianças no seus rodopios. Eu tinha areia desocupada à minha volta e isso deixou-me com uma sensação de conforto.

Ele corria a praia de ponta a ponta na pior hora do dia possível, o sol estava a pique e não poupava nada nem ninguém. Podia ver uma gota de suor escorregando pela sua testa. A pele era naturalmente morena, ainda mais curtida pelo trabalho ao sol. Timidamente, perguntava, por quem ia passando, se estavam interessados em pulseiras e fios de missangas, óculos de sol e túnicas coloridas. Ninguém lhe passava cartão. Estranhamente, continuava a sorrir e agradecia a resposta. À segunda vez que o vi, uma hora após a primeira, estacou, virado para o mar. Dirigiu-se para perto de um chapéu de sol onde um avô ralhava com as suas netas. Ali, mesmo sem ser convidado, deixou-se cair sobre os joelhos, sentando-se sobre os próprios calcanhares. Estava exausto. Olhava em redor com os olhos brilhantes, demasiado brilhantes, provavelmente do cansaço, da frustração de não conseguir vender uma agulha, das saudades do seu país, dos olhares incomodados à sua volta. A sua camisa estava abotoada até ao fim, as calças usadas, os ténis gastos. Poisou os seus sacos no chão, tirou o boné e coçou a cabeça. Pensei por momentos que ia desistir. Deixar tudo ali mesmo e fugir para uma vida que ele considerasse mais digna. Da sua mochila retirou uma garrafa de água pequena, deu dois tragos grandes e com o restante refrescou a cabeça. Os seus olhos brilhavam ainda mais. Quase pude jurar que tinha visto lágrimas, mas não tive tempo de confirmar. Rapidamente levantou-se e carregou-se das suas bugigangas, seguido caminho. 

Senti o coração apertado. Eu que tinha ido banhar-me no meu momento de lazer. A pensar nas minhas próprias frustrações e dificuldades. Odiei-me nesse instante, por ser tão pequenina e por tomar tanto por adquirido.

Para onde quer que vás, desejo que os ventos da boa sorte te acompanhem sempre.

Wednesday, August 29, 2012

Sweet candy

Tinha feito uma pergunta. Uma só. Uma questão simples, concisa e objectiva. A resposta, pensei, é só de quem a recebe. Uma pergunta inocente. Talvez nem tanto. A pergunta. A que revelará todos os segredos,  a que abrirá todas as portas. De quem queira deixar um estranho entrar.
Quem és tu?
Falou-me na profissão. No que faz. Da sua rotina do dia, dos trâmites das suas noites.
Insisti.
Quem és tu? [Não perguntei o que fazes]
Exemplificou-me os seus gostos. Suplicou-me que, a partir deles, tirasse as minhas conclusões. Na lista entravam caminhadas na praia, de noite ou de manhã, romances históricos, filmes de ficção científica, cozinha mexicana, sempre mas sempre muito picante, a cor vermelha, cerveja gelada e gins tónicos, a brisa do outono, o avançado da noite, combinações tardias e em cima do joelho, e de andar sem sapatos.
Não me satisfez. Seria assim tão difícil responder a uma pergunta?
Quem és tu? [O que gostas é uma coisa, o que tu és, é outra. Podemos todos gostar do mesmo, ou não partilhar nenhuma preferência. Nada disso nos diz quem  nós somos.]
Chegou então a vez da família. Descreveu-me os laços existentes e os já quebrados. A falta de comunicação, as discussões, as reconciliações, as partilhas, as saudades dos que já partiram. 
Mas eu queria ir mais longe e, caramba, a resposta estava ali tão perto. 
Quem és tu? [Ajuda-me. Estamos quase lá.]
O cansaço, o constrangimento, talvez a falta de amor próprio ou de auto-observação, impediu a continuação do seu esforço. 
Diz-me tu. [Eu? Como?] Acompanha-me todos os dias, observa-me de longe, de perto, como quiseres, mas olha para mim. No final de cada dia perdi-te-ei um adjectivo. Os que me puderes dar. [Sorri. Corei. Baixei os olhos e prendi o cabelo atrás da orelha. Já a caminho de casa ocorreu-me "És um doce"].


Monday, August 27, 2012

the art of war

Sim, dá vontade de gritar, sim dá vontade de, por uma vez que seja, dizer o que penso, sem pudores, sem medos, sem entraves. Dá vontade de ser acutilante, de usar as palavras do meu dicionário que almofadei por educação. Sinto-me a sair do salto, a estalar o verniz, a rodar a saia, a arreganhar os dentes, a mostrar as unhas, a soltar as amarras, a deixar a fera fugir e fazer estragos. Alguém, que não eu, que recolha os destroços. 

Mas não o faço.

Levanto a cabeça. Rasgo um sorriso condescendente. Foco-me nos olhos. Intimido e incomodo. Lamento. Vejo os lábios mexerem, balbuciam palavras sem nexo. Percebo o movimento em meu redor, é apenas uma encenação em câmara lenta. O meu corpo está lá, presente. Os meus pensamentos voam longe, noutra direcção, são livres. São impagáveis. Eu não estou cá. Isto é uma coisa, eu sou outra. Não me podem alcançar, não deixo. Eu sou eu, e a mim, não me podem ter. 

A minha casa é o mundo, a espontaneidade, o meu amante. 
"A vitória dos outros reside nos nossos medos."

Eu não tenho medo. Rasguei-o e deitei-o fora. Agora jogamos assim. Morte súbita. 
Are you sure you can handle me?

Sunday, August 26, 2012

wild horses

Cavalos a vapor, que deslizam e voam muito por cima das nossas cabeças. Há um frio no estômago, o frio da imponderabilidade, da fragilidade de se estar desagarrado do que quer que seja que nos prende à terra, com o vento no rosto, fechamos os olhos e perdemos o chão, nada que nos salve, nem nós, muito menos nós. Há um imenso céu rosa e cor de vinho, cheira a algodão doce, esticamos os braços, queremos provar aquelas nuvens que estão mesmo ali e tão longe...
Há uma música que não se ouve, por debaixo do ruído do motor, mas não entendemos a letra, melhor assim. 
Há uma emoção suicida que nos faz querer mais. Um toque na perna. Ligeiro. Que diz, sem qualquer palavra - não tenhas medo, confia em mim - confio, não sei porquê - estás segura - estou, conheço-te, mas não te conheço de todo  -  não te deixo cair - eu sei, os cavaleiros não deixam as princesas cair.


Monday, August 6, 2012

We know better

Já devíamos saber mais do que isso. Já lá vai o tempo em que não éramos crescidos e não sabíamos o que vinha a seguir. Jogávamos as cartas todas sem saber em que jogo tínhamos entrado. As várias estratégias de o ganhar. Tínhamos mau perder. Teimávamos em levar adiante o que tínhamos perdido na primeira mão. Não conhecíamos bem o azedo sabor que fica nos lábios depois da derrota. 

Ninguém vai ao engano. Sabemos os nomes que gostaríamos de colocar nos sítios onde, em seu lugar, deixámos parágrafos. E mudamos de linha, esgotamos a folha, viramos a página e fechamos o livro. 
Tentamos abrir outro. Ler um capítulo sem nos aborrecermos de morte. Levá-lo até ao fim. Tentamos encontrar uma história que nos emocione. Que as personagens se agarrem a nós e não nós as elas, tentando reescrever aquilo que somos, inventando-nos para o que gostaríamos de ser. Somos isto. Os despojos das várias batalhas que perdemos. 

E  alimentamos uma esperança mórbida de que a próxima vez vá ser diferente. 

De peito cheio, de moral a braços, exigimos tudo deste e do outro mundo, já que é para pedir, não sejamos humildes. Sabemos que a vida devolve pouco do que queremos, quase nada do que achamos que nos vem a calhar ou nos assenta bem. 
O tempo é uma merda. Fechamos os olhos dois segundos, enquanto estamos a ser maiores, a não virar as costas, a dar a outra face, a levantar a toalha para nos secar as gotas do esforço na testa, a recolher destroços, a colar em puzzle pedacinhos de amor partido até que, de repente, tão instantaneamente, voltamos a abri-los e.. nada ficou igual. Já muitas coisas passaram. E nós, encarreirados nos carris, nem vimos a paisagem mudar à janela. Ficou para trás. Perdemos o tempo. Deitámos fora a oportunidade.

Ganhamos uma capa, desenvolvemos uma espécie de escudo epidérmico e, assim, vamo-nos desviando do que nos faz doer. Um dia, as lágrimas deixam de cair, o sangue de escorrer, a pele de se rasgar, o sorriso de desenhar. E aí, é quando teremos a plena satisfação de ter atingido o último estado de graça assentimental. 
Se madurecer é auto-privarmo-nos dessa anima que colora a vida, um bocadinho mais a cada dia, então que venha a próxima, e que eu nela, seja girassol.


Saturday, August 4, 2012

És o meu porto seguro, o meu porto abrigo, porto de embarque, porto de atracagem, minha vista para o mar. És a minha nesga de azul no céu nublado, a chuva fresca de verão. 
És os meus olhos quando não quero ver, a voz que se destaca da multidão. A minha flor do deserto. És o mel que envolve a gota de limão. O sal que tempera a minha comida, o sabor que dá gosto à vida. És o luar na noite escura, o remo em mar alto. 
O agridoce que me confunde. O silêncio que me faz pensar. A mão que me acalma. És o amor que não tem forma nem objectivos. És a certeza do que existe e não se vê.
És bocado de mim. Coisa que não se separa. 
És tu para sempre.

Saturday, July 28, 2012

Não sei como deitar amor ao lixo. Mudar a tecla de atalho para esse número de telemóvel, esse email predefinido, essa referência imediata à única pessoa a quem efectivamente eu pertenço. Essa coisa de, independentemente tudo o resto, sermos só um do outro. De nos conhecermos melhor que ninguém. Os defeitos que aceitámos incondicionalmente. Os conselhos que mais ninguém acerta. Merda para os laços que não se vêem e que não se cortam à faca. Merda para os afectos irracionais, irresolúveis. 
Merda para as feridas que não se fecham com pontos e não saram com álcool. Merda para a farmácia que ainda não inventou fármacos para estas patologias.
Nem imagino quando isto vai deixar de doer. Provavelmente apenas quando deixar de sentir o corpo e a alma numa espécie de meta existência. 
Nestas alturas gostava de ser um número, pertencer a uma ciência exacta como a matemática, poder encaixar numa equação que alguém resolvesse e designasse de teorema para futuros problemas idênticos. 
Ser pessoa, dói.

Monday, July 23, 2012

De que é que se tem medo, quando se perde tudo. Tudo o que achávamos, ingenuamente, que nos definia, que nos fortalecia, que nos suportava e que nos justificava? De que se chora quando se perde um dia, o dia, nosso dia, e com ele amigos, pessoas, carinhos, considerações, preocupações, sentimentos?
Não se chora mais, não se sente mais. Muda-se. Esquece-se, apaga-se a linha de texto que nos doeu e elimina-se o autor, que já chega de darmos tudo.
Chorar, mais não. Não tenho medo, não tenho dor, não tenho espanto.


Se já não tenho nada, agora sim, posso ter tudo.

Monday, July 9, 2012

Há um barulho que não se ouve. Há um ruído mudo que confunde esse sentido da audição, quando nem reparamos o que se passa em nosso redor. Há uma tristeza no peito de uma mulher que perde um filho, no homem que se divorcia da mulher daquela que, independentemente do papel rubricado, será sempre sua, daquela da que já não consegue dissociar das suas frustrações. 
Há um burburinho das águas que rebentam em rochas lisas e que se propaga por uma floresta adentro, coisas que estão lá, estarão sempre lá, e não as escutamos. Os pássaros que nos acordam de manhã, empoleirados em árvores que roçam folhas umas nas outras, a indicar-nos se está ou não vento, a dar-nos sinais, sinais que preferimos não reconhecer.
Há um barulho surdo e mudo que se vê. Há um coração que bate mais forte no peito da mulher que sente um cheiro, aquele cheiro que, passe as estações do ano que passarem, será sempre o cheiro que a sua pele vai reconhecer. Esse barulho não se ouve. Vê-se, nas suas pupilas que dilatam, nos poros que eriçam em arrepio, uma vertigem que quase faz cair, quase faz cair, e quase se pode ver, um espectro de si, planando sobre o solo morto. 
Há saudades que não têm som, que não têm cor, que não tem sabor. A angústia do querer ver, querer estar, querer tocar e não poder, porque não se pode, não se pode, não se pede. 


Os sentidos também se deitam fora?

Tuesday, July 3, 2012

Votos

Escrever votos é desejar que o minuto, a hora, o dia em que os desejamos se perpetue naquele sentimento que preenche e transborda o nosso ser. É saber, que ali, somos de alguém e alguém é de nó,s e torcermos os dedos, e o corpo todo, para que a vida, a vida que pode ser tão estúpida, não altere essa verdade. É jurarmos, para nós os dois, que ainda que nos tirem o tapete, que ainda que nos troquem as voltas, que ainda que nos façam doer, que ainda que venha um vento de inverno invadir-nos a noite de verão prenunciando um fim, o amor é nosso, e esse ninguém nos pode tirar. 
Que venha a vida, o mundo, o tempo, que venha a pobreza, a insatisfação, a monotonia e a dúvida, o aqui e o agora, serão sempre teus.
Estes são os meus votos.

Monday, July 2, 2012


Podemos fazer tudo para eliminar memórias. Rasgar fotografias, rifar objectos partilhados, devolver empréstimos, despachar partilhas, mudar a orientação da mobília, despendurar quadros, doar roupas perdidas no armário à caridade, evitar sítios, mudar o número de telefone, trocar a fechadura da porta. Tudo. Só há uma coisa que não se apaga, que não se esquece, que não se modifica.

O cheiro das pessoas fica sempre entranhado em alguma parte de nós. 


Friday, June 29, 2012

Outono em pleno inverno


Não me cabe a mim apontar os erros de investimento emocional. Nem dizer que acho ridículo alguém se deixar perder ao cúmulo por amor. Não sou eu que devo aconselhar alguém a deitar amor fora, porque eu acho isto ou aquilo em relação à medida em que o outro merece ou não ser amado. Do amor só sabe quem o sente. Só posso escutar e ir atrás de alguém que se atira constantemente para o abismo, com a mala pronto socorros atrás, curar feridas e preparar a pele para as próximas.
Ninguém tem nada a dizer, só porque já não aguenta ouvir os mesmos desastres vezes sem fim.
Porque cabe-nos a nós a correr, cabeça contra parede, vezes e vezes, umas atrás das outras, sangrar até ao osso. Até que um dia, chega o dia, em que quando olhamos o amor já lá não está. A pessoa já não nos move, a voz já não nos assombra, a pele já não nos toca, os olhos já não nos emocionam. Há um dia em que, como uma folha que cai seca e murcha de uma árvore no outono, o amor se desconstrói e se transforma numa conexão subtil e transparente. Há um dia em que deixa de nos perturbar. Cessa de existir.
Um dia, o teu dia, vai chegar.

Monday, June 25, 2012

Eu e outro Eu


Não consigo me conter. Não me consigo esconder. Não consigo mentir. Não consigo fingir indiferença, não quero jogar jogos. Quero ser eu, pela primeira vez, e para sempre, deixem-me ser eu. Não consigo mudar para uma versão mais comercial de mim.
O que são os pesadelos? Quem me assombra nos meus sonhos, quem entra no meu quarto escuro, se deita na minha cama, se encosta à minha almofada, afasta os meus cabelos e me impinge medos olhos adentro? Quem se atreve a interromper o meu sono de princesa, quem macula os lençóis de talco, quem me dá suores frios, palpitações, tremores e gritos?
Tens de desligar, elimina os pensamentos, entorpece o cérebro, desactiva as emoções, põe o coração à cabeceira, e deixa-o lá estar enquanto precisares de dormir.
Não sei desligar partes de mim para o que for. Tenho de me ter em pleno, durante as vinte e quatro horas das minhas actividades diárias. A chorar ou a rir, a ficar ou a partir, a beber ou a respirar, faço-o com cada molécula do meu ser.
Prudência ou medo? Prevenção ou indiferença? Ir com tudo, ir com pouco ou não ir de todo?
Tenho de ir, eu só sei ir, nem que seja para o vazio. Tenho de calar as vozes surdas da minha cabeça que me debitam mensagens subliminares ao minuto, não as posso ouvir, que eu já não sei nada, e engano-me mais do que acreditava. Os meus sentidos estão a perder-se de mim, orientam-me para os sítios errados. Enganam-me, mentem-me e eu, sem esse amparo extra-sensorial, não sei o que pensar, não sei sequer sentir.
Quem és tu e o que queres de mim? Se nem tu sabes, não me faças ficar para descobrir. 




Wednesday, June 20, 2012

A liberdade só é completa quando as consequências não nos afectam. A liberdade é um anti-sentimento, é uma espécie de egoísmo sensorial. Ser livre é uma escolha. Em que se decide dar menos importância às coisas que nos podem vir a limitar. É não pensar e não medir palavras, gestos e atitudes. É dar força ao impulso e negar a consciência da moralidade. É mandar à fava quem tenta racionalizar aquilo que nós somos. É podermo-nos rir na cara de quem acha que pode tirar conclusões do nosso momento de espontaneidade. Ser livre é por um basta ao que nos magoa e a tentarmos tirar qualquer lição das coisas más que nos acontecem. Shit happens, everyday. Sou livre porque acredito nisto e aceito a minha impotência sobre o que isso pode trazer. 
Ser livre é, ainda assim, ir à luta. Saber o que quero e ir atrás disso. 
Ser livre é não ter medo. Medo de amar, medo de sofrer, medo de perder, medo de morrer. O medo faz-nos pequenos e dá-nos à derrota. E eu só dou à derrota aquilo que já não quero. 
Até ver, sou livre.




Monday, June 11, 2012

Ou então, não

E aí, caminhamos inevitavelmente para isto.


What goes around comes around

Saber o que (não) se quer. Aparentemente é tudo o que precisamos para continuarmos a fazer conscientemente as nossas escolhas. 
Penso várias vezes na inutilidade das frases feitas que se colam à vida de toda a gente e à vida de ninguém, porque são bonitas, porque se vestem de um conhecimento individual que facilmente passa por sabedoria para as massas, lições de vida. Sou contra isso tudo. 
No fundo também sei que não quero o que quero, quero o que preciso. Embora aquilo que eu preciso não satisfaça a curto prazo. Enfim, talvez me possa poupar de alguns percalços a meio e longo prazos. Mas eu já deixei de fazer planos a essa distância. 
Se houve alguma coisa que aprendi nos últimos tempos foi que nunca serei capaz de tomar uma decisão que vá contra aquilo que sinto, a não ser quando eu me sentir preparada. Quando eu souber, no meu íntimo, que não consigo mais caminhar em determinada direcção, porque o que eu sinto, ou sentia, foi estragado. É a diferença entre estar damaged e estar broken.. Once love is broken, there's no way to fix it.
Enquanto sentir que os meus sentimentos estão damaged, tenho de continuar a (ir)racionalmente seguir o meu instinto. If nothing, to force it to breake.
Quantas vezes voltámos aos mesmos sítios, quantas vezes mudamos e voltamos a ser as mesmas pessoas, quantas vezes deixámos de nos conhecer e voltámos a ser um do outro, quantas vezes passámos pelo processo de nos conhecermos pela primeira vez? Um dia, há-de ser a última. 
Ainda não vai ser hoje.


Saturday, June 9, 2012

Não sei porque continuo a enganar-me a mim própria, a ignorar os meus instintos. Eu sei, eu sinto, as coisas, ainda e sempre. Quando sinto que não devo ir por determinado caminho, quando o meu corpo me diz que não é para ir, é porque não é para ir. E mesmo assim, teimosa, fui. Ainda bem. Só para constatar que não devia ter ido.
A fugir às tentações, literalmente, a escapar, a escapulir-me quando sei que pode acabar mal. Também o sei fazer, quando estar ou não, não me faz diferença. Não. Não quero mais isto, que isto não chega, que eu quero mais.
Deixem-me o corpo, deixem-me a alma, que o que eu quero não me podem dar. Eu quero eu. Quero dar a quem me pode receber. Uma noite, um minuto, não chega.

Friday, June 8, 2012

Good things come to those who wait

No café do costume, a meio do meu croissant e do café (como é costume) queimado, uma desconhecida sentou-se a meu lado para falar do Óscar. 
"Ele tem 91 anos, mas é um cavalheiro, ainda tem cabeça, continua a escrever artigos para o jornal e a mandar piropos às auxiliares mais jovens. A família dele vive aqui perto, mas não o vão visitar, tiraram-lhe o acesso ao dinheiro e à sua própria casa e ele, coitado, só quer uns trocos para poder continuar a fumar os seus cigarros, tal como fez a vida toda."
Lembrei-me dele, um velhote doce, com um figura imponente. Já uma vez me tinha perguntado que marca eu fumava. Contou-me que agora tinha uma máquina de enrolar, mas que não se ajeitava com aquilo.
Fiz-me solidária para com o Óscar, junto daquela senhora que eu não conhecia. Desejei-lhe bom resto de dia e fui à minha vida.

Mais tarde numa loja, na qual não resisti a entrar para experimentar aquelas sandálias, vi que já havia uma mulher com elas nos pés. Sentei-me ao lado dela e percebi que era uma espécie de uma versão de mim daqui a dez anos. Seca no corpo, caracóis claros a cair-lhe pelo queixo, olhos azuis e de gosto claramente igual ao meu. Vi que trazia uma aliança no dedo. 
"Tenho sempre este problema, para todos os efeitos calço o 38, mas as sandálias pedem-me sempre um número maior, mas como tenho o pé magro, esse número fica-me sempre a escorregar pelo pé." 
Respondi-lhe que tinha o mesmo problema [se é que isto é efectivamente um problema]. Entregou-me as sandálias que eu, repentinamente, deixei de querer. Experimentei já sob o testo da solidariedade e, felizmente, o 38 ficava-me pequeno. Disse-lhe que, assim, desistia dos sapatos e desejei-lhe sorte com o tamanho acima.

Na bomba de gasolina, a funcionária que demorou uns segundos exagerados a atender o meu pedido, justificou-se que estava longe dali [pensei eu, provavelmente a imaginar as férias ao sol], ao que completou que alguém tinha tirado baixa, convenientemente entre um feriado e o fim de semana e que, consequentemente, teve de interromper as férias ad eternum. [good things come to those who wait, pensei] Respondendo-lhe, que desejava que tirasse as férias merecidas, o quanto antes. Sorriu-me.

Depois do almoço, voltei ao café, no qual estava o Óscar, por coincidência. Veio sentar-se a meu lado. Disse-me que eu era uma menina gira e que a minha sorte era ele não ter menos cinquenta anos. 
Quase em simultâneo, um telefonema da chefe. Esse sim, a provar-me que good things come to those who wait.


Wednesday, June 6, 2012

Santos e pecadores

Noite de santos. Dia difícil. 
Vamos sair, fazer qualquer coisa, descontrair.
Vamos.
Petisco puxa cerveja, e esta puxa outra. E o conjunto leva-nos aos sítios de sempre. Sem querer, nem saber como, voam à minha frente copos pequeninos encimados por rodelas de laranja polvilhadas de canela. É para ser cá da malta. Vamos embora. Mais um e outro. Mas não me apetece, a cabeça não está ali. Cheiro a sardinha, a bifana, a erva. Muita gente junta-se, repentinamente à minha volta. Danço uma coreografia para acompanhar, dança o corpo, o coração não, a alma muito menos, e acho que toda a gente repara que, assim, não sei dançar. Acompanho. Faço o meu papel. Distribuo sorrisos aos rapazes que se metem comigo. E mando-os à sua vida. O caos, a confusão, a gritaria, a cerveja a inundar as roupas, a sujar os sapatos, os encontrões, as tentativas de engate. E no meio, sem esperar, uma cara conhecida. Que me reconhece. Que conheci, pela primeira vez, há precisamente um ano. Que estaciona a metros de mim, só para que eu perceba que me está a observar da cabeça aos pés. Gelo. Ardo. Paraliso. Não estava preparada para isto. Ainda não. Mexes comigo. Mexes com todo o meu corpo de modo inexplicável e irracional. De todas as formas más. Que não se quer. Aproximas-te. Sinto o teu cheiro. É igual à memória que tinha apagado de ti. Beijas-me o ombro e levas-me pela mão. Esquivo-me pela multidão e fujo. Mais uma vez. Procuras por mim, e eu corro pelas escadas fora à procura de um taxi que me leve ao meu carro, que nem me lembro já onde deixei. Telefonemas aos quais não atendo. Mensagens às quais não consigo ficar indiferente. Quero voltar a ver-te. Sem fugir.
No caminho para casa, a estrada foge-me das mãos. Bebi demais. Traço linhas rectas onde quase posso jurar que estão curvas e nem me preocupo. Abro o vidro da janela. Deixo a brisa entrar e arrastar o meu cabelo. Fecho os olhos. Na rádio os azeitonas prometem-me levar a América. Mudo o posto, farta de músicas lamechas e promessas no ar. Entre zappings e cigarros, encontro outra que não me apetece ouvir, mas que não consigo mudar.


Oiço a letra. Fecho os olhos e respiro a brisa. Recuso-me a acreditar que esta música é para mim. Desligo o rádio. A voz continua na minha cabeça.

Chego a casa e, nem a propósito, outra mensagem, outra cara familiar que me conheceu há um ano. Desta cara, vêm palavras doces, vêm saudades e carinhos. Vou ver-te novamente. Prometo. 

Saturday, June 2, 2012

schhhh

Porquê o silêncio? [perguntam-me]

Porque há um silêncio que se instala quando fecho a porta à frente do carro que me traz a casa, um silêncio durante todo o caminho da boleia, e outro quando me sento no sofá para escrever. 
Porque há um silêncio nos corredores, à despedida das pessoas que não têm mais lugar ali, o silêncio das ficam, prostradas em frente a um computador, fingindo que esse silêncio não perturba a vontade de ali permanecerem. 
Há um silêncio, nas mensagens de mail ou de sms, mesmo quando trazem informações.
Há um silêncio que nos questiona, quando chega à hora de tomar decisões. 
Um silêncio na cama, quando o sono não vem. Nas paredes onde os quadros solitários nos forçam memórias do que já lá não está. Um silêncio à mesa quando não há apetite. Um silêncio no prato que não nos alimenta.
Um silêncio que impossibilita qualquer aproximação a quem mais estimamos. 

Silêncios que podem durar um minuto ou uma vida. Silêncios que, cruéis e prazerosos, nos colam a consciência às mãos e nos obrigam a fazer dela alguma coisa. Silêncios que nos mantêm o foco onde ele é preciso. 
Só o silêncio nos devolve o que é importante. Só ele nos recorda que o ruído de que nos cercamos até de madrugada não nos preenche. O ruído é bom. Mas apenas o silêncio o consegue explicar.

Silêncio não é tristeza, não é solidão. Pelo contrário. É uma estratégia, uma escolha, uma necessidade. Só em silêncio nos conseguimos escutar a nós próprios. Abrandar, reflectir, reorganizar e avançar com toda a força.

Por isso, e por agora, só por uns instantes, baixem as vozes, desliguem a música, que eu preciso do meu minuto de silêncio.



Tuesday, May 29, 2012


Não sinto nada. Que estranho. Sinto-me dormente. Ausente. Impassível. Intangível. Nada é surpreendente. Já tinha visto isto a acontecer. Tudo à minha frente. A única coisa que resta decidir é como vou agir sobre isto. Não posso ficar passivamente a cair num ciclone de negatividade. Não pode ser. Tenho de me fazer à vida. Já me fui desfazendo de algumas coisas. Há outras que não têm desfazia possível. Sangue e amor, isso não se descarta.
O resto, terá de ficar pelo caminho…
Não vou chorar, não vou chorar, não vou chorar. 

Monday, May 28, 2012

Vista de Dentro

Gosto desta serenidade que recentemente aprendi a apreciar. A tranquilidade com que deixei de correr para qualquer lado à procura de agarrar tudo, como se o [meu] mundo se fosse extinguir, caso contrário. Mas o mundo não acaba, as pessoas não fogem, as oportunidades não duram apenas uma milésima de segundo. 

Há tempo para tudo. Para amar, para apreciar, para saber o que queremos procurar e, especialmente, para que as coisas sigam o seu curso natural. Isto só é possível com uma boa dose confiança e com várias intro e extrospecções. Não falo, naturalmente, de experiências esotéricas ou de um universo paralelo. Falo do aqui e do agora, vista de dentro, pelo lado de fora. A pergunta que se tem imposto, sempre “o que é o pior que pode acontecer?” e quando a resposta é semelhante ao que já aconteceu, algo de que se está acostumado a abdicar, então o pior deixa de ser uma ameaça, um assombro. Deixamos de ter medo. Aceitamos. E com essa serenidade abrimos o peito ao que está para vir. Se os nossos olhos sorrirem ao que aí vem, a mudança será sempre positiva. Tem de ser, temos de assim a transformar. O medo da mudança paralisa, estagna. É preciso crescer. Não faço teatros do meu estado de espírito. Enquanto ele estiver elevado, vou alimentá-lo dessa forma, cultivar essa energia positiva. Deixei de ter espaço para a tristeza ou para o medo. Mudei? Fruto de tantas coisas em simultâneo. Confesso que, antes disto, pensei que não conseguiria superar tudo ao mesmo tempo, julguei que as pernas me iriam falhar e que iria tropeçar algures no caminho. Mas com um bocadinho de sorte, e com a muita determinação à qual me forcei, consegui agarrar as minhas fraquezas e atirá-las para o campo das forças. E consegui. Sinto-me outra pessoa. Nada, mas nada, me conseguiu mandar para baixo. Todas as situações difíceis, e muitas que foram, passaram por mim como um tornado e nem um fio de cabelo me conseguiram desmanchar. Estou orgulhosa de mim. 

Entre desafios e decisões, houve tempo para o amor, especialmente por mim, depois por aqueles que incondicionalmente me amam. E até por aqueles que, por ocasião ou circunstância, estão longe. 

Finalmente cheguei onde queria chegar quando comecei este blog. Tenho todas as minhas reflexões expostas, consigo segurá-las com duas mãos. O que fazer delas? Vou descobrindo, dia a dia. E tenho todo o tempo do mundo para ser eu. Seja a pessoa que todos me vêem, ou aquela que só eu conheço, vista de dentro.

Wednesday, May 23, 2012

Transferências

Associar músicas tão familiares, tão contextualizadas em sítios e em pessoas concretas, a outras histórias, riscando as que ficaram para trás, deve ser o exercício mais exigente. 
Quero um café meia chávena.
O mundo continua a girar, bebem-se bicas, fuma-se tabaco, bebem-se copos, fala-se, ri-se, sai-se, tudo igual. Nada mudou no Universo. Só nós. Só o nosso íntimo. 
(eu te disse que eu era inocente)
A mesma música, outras pessoas. A mesma música, as mesmas sensações fervilhantes. Outras pessoas. Transferir coisas. Mudá-las de sítio. Encontrar outra casa. 
 (agora, não me toca)
Ocupo muito mais do que uma cadeira. Isso já não chega. 
(tudo foi em vão)
Estás a precisar de ir dançar, vou levar-te a dançar, deixas-me?
(deixa-te ir) 
Sim, deixo-te levar-me. Leva-me e, por favor, não me devolvas.
Não queres que te devolva? Porquê?
(deixa-te ir) 
Porque não vou voltar. Porque nem nesta, nem na próxima vida, vou voltar a ser um gato.

Tuesday, May 22, 2012

As paredes têm voz


As cadeiras, de mãos dadas, saltitam à volta da mesa, a coberta levanta-se e dança à janela, fita os meus olhos e, com um ar jocoso, faz-me um sinal para que não me levante do chão. Eu, no chão, abraço os meus joelhos, para que a dor passe, para que me concentre no alívio, que não chega, que não me toca, que não me visita, a dor, aqui e ali, em todo o corpo, qual corpo, as náuseas e a constante vertigem que me gravitam ao chão. A cabeça a expandir-se do lado de dentro.

As vozes, essas não se calam, murmuram, baixinho, várias coisas em simultâneo, tento segurar uma e persegui-la, só essa, só uma, para entender o que me quer dizer, mas não consigo, não é possível, outras sobrepõem-se, num novelo cada vez mais compacto de ideias.

Grito para me libertar, mas ninguém me ouve, estou isolada entre estas paredes.

Quase que posso tocar numa imagem etérea, que não é real, mas que me surge, translúcida, pairando sobre a minha cabeça. Quanto tento alcançá-la tudo se desfaz. 
E finalmente, um silêncio que, também esse, não consigo suportar. 


O verbo

Quando alguém se aproxima, sem aviso, o seu coração dispara em sobressalto. Sempre alerta, de sobreaviso, sempre na expectativa que seja ela que finalmente decida baixar a guarda e entrar pela vida dele adentro. Entrar para ficar. 

Pensa amiúde que é ela, que só pode ser ela, só ela o mexe, apenas ela fá-lo querer ser mais e melhor, só ela vestida com a sua resplandecente agudez no olhar, com a sua predominância sobre todas as centenas de metros quadrados que transpõem os seus passos, o domínio por sobre toda a luz do seu sorriso, uma imagem que queria trazer sempre consigo numa algibeira, tal como ao cheiro que não se contem nos limites de uma pele. 

Troca-se-lhe o norte, num só instante, fica virado do avesso, direcção que nunca tinha tido lugar muito certo, não para si, o rumo não interessa, para onde não tem importância. O único verbo que terá sempre valor, só pode ser o ir.

Monday, May 21, 2012

Sleeping Beauty

De peito descoberto, cabelo alinhado simetricamente nas duas metades da almofada, uma respiração imperceptível, os lábios imaculados, o rosto subtilmente iluminado pelo luar que entrava pela janela entreaberta. À cabeceira, apenas uma cadeira a suportar um volume de histórias marcadas mais ou menos a meio. Os chinelos a interromper a textura lenhosa do soalho. Quatro paredes monótonas, demasiado próximas umas das outras, para o desejo de liberdade que ali dentro se sonhava. 
Uma figura que se aproximou, em sombra, do leito que justificava aquele doce descansar. Dois lábios que tocaram os que dormiam, noutro plano, outros que não os distinguiam em que parte da realidade os enquadrar, outros que devolveram o beijo.

Teria sonhado?

O terceiro homem tinha-a feito esquecer os únicos dois outros que a tinham beijado.


Sunday, May 20, 2012

Starting over again


Starting again não é starting over.
Começar de novo, quantas vezes nos predispusemos a fazê-lo? Quantas vezes o fizemos crendo nisso como o último esforço de vida, o último sopro da ressuscitação, como se viesse até a nós o poder de Afrodite e Atena, numa só mão, como se isso fosse só o que é preciso para alterar um resultado conhecido?

Starting over é diferente. Starting over é desistir. Starting over é começar sobre o acabado. Depois de matar o desejo da possibilidade, depois de desconstruir uma imagem conhecida, obrigando a que a certeza do que não vamos conseguir, nunca e de maneira nenhuma, caia sobre nós, com toda a força e o peso que só a certeza pode ter. Starting again é ser fraco. Starting over é sermos mais fortes que cada célula e músculo do nosso corpo. É aceitar a derrota, é despedirmo-nos do que nos destrói um bocadinho cada dia, é assumir que o mal que nos faz é infinitamente maior do ligeiro bem que imaginamos que eventualmente possa nos possa trazer. É crer que as bases que nos deixam pós de esperança nos olhos são infundadas e alimentadas por construções deturpadas da nossa memória. É devolver o passado ao sítio que ele merece e colocar um céu e um mar sobre o ali e o agora. O agora é mais exigente, mais duro, mais implacável. Obriga-nos a sobreviver em lugar de nos deixarmos ir vivendo com sucessivos starting again.

Starting again é fácil. Starting over é outra coisa. É deixarmos de caminhar sobre um chão que já deu uvas.
É acreditarmos que valemos mais do qualquer expectativa. É, no fundo, gostarmos mais de nós do que de qualquer outra coisa.

I'm starting over. Again.


Saturday, May 19, 2012

Gosto do Pedro Paixão

"...embora todos os homens, todos, te quisessem beijar. 
Vais encontrar o teu terceiro homem e esquecer para sempre os dois únicos que te beijaram."

Thursday, May 17, 2012

Já que enfiaste o barrete - apesar disto não ter tido a ver contigo em particular - e decidiste materializar uma mensagem clara para mim, não sei bem porquê, aqui fica a minha. Para ti. Prometo não me alongar.

A auto-estima, que se quer alta porque isso é saudável, pode facilmente resvalar em pretensão e arrogância. Acho bonito - até um bocadinho romântico - pensares em ti próprio como o sol (e sê-lo-ás certamente na vida de muita gente), não te esqueças é que o sol é apenas uma estrela, de dimensão irrelevante no seio do universo. 
Conselho para quem chegou à conclusão de que não pode ser um jumento: dar graças a Deus de haver pessoas que reclamam pela tua presença perto delas, por gostarem de ti, por te acarinharem e por te perguntarem "o que vamos fazer logo". "Estás sempre cansado" ou "entediado" ou "desanimado" (seu IDIOTA) não é cobrança, é preocupação. 
Ninguém te pede coerência, apenas genuinidade. Não com o que dizes ou escreves, mas contigo mesmo. Não andasses tu sempre perdido no meio dos teus pseudo-sentimento-reflexões. Quando te perguntam o que isto ou aquilo quer dizer, não significa que se esteja a escalpelizar os teus sentimentos à procura de "códigos" em benefício próprio, mas apenas que te querem dar uma mão a te encontrares no emaranhado que é essa cabeça oca. 
Ninguém te pede amor, ou paixão, ou fica a ler nas tuas entrelinhas um sinal disso. Apenas te querem ver feliz e  apaixonado por ti e pela vida. Que é coisa na qual, obviamente, não estás a trabalhar bem.

E se achas que este magnifico privilegio - que é ter pessoas que verdadeiramente gostam de ti e que procuram a tua companhia - uma pressão ou cobrança, se não consegues perceber a diferença entre uma e outra coisa, burra sou eu de ter perdido tempo contigo.

Nem a propósito

Escreve o Pedro Chagas Freitas:

"É-S-U-M-B-U-R-R-O
Só os burros é que são infelizes. Mais uma vez: só os burros é que são infelizes. Ainda mais uma: só os burros é que são infelizes. Sim: os burros. Os jumentos. Os cérebros de caca. Os calhaus com olhos. Ainda não entendeste porquê? Pois. Já suspeitava. Seu, seu. Seu. 
Cá vai: andaste, desde sempre, a acreditar que a infelicidade, a depressão, a melancolia e essas merdas todas eram sinónimo de inteligência: sinónimo de que eras alguém com cérebro e que, coitadinho, de tanto ver o que os outros não vêem, de tanto observar o que os outros não observam, percebe que a vida não faz sentido e que viver não vale a pena. Era isso, não era? Lias o Fernando Pessoa a queixar-se da vida e da falta de sentido para a existência humana e pensavas: chiça, afinal eu sou um génio, afinal eu também sofro por ver que o mundo faz doer e que viver faz sofrer. Pois bem: és um verdadeiro jumento. Um burro. Um calhau. E dos bem duros. Agora com todas as letras: é-s-u-m-b-u-r-r-o. Um burro. Ainda não entendeste? Pois. Já suspeitava. Seu. 
A genialidade não é escrever livros que fiquem para a história, nem pintar obras-primas, nem inventar curas para doenças, nem resolver problemas que mais ninguém consegue resolver. A genialidade não é fazer facilmente o que para os outros é difícil – muito menos é conseguir fazer o que para os talentos é impossível. Não. Não. Não. Não. A genialidade não é fazer bem, nem inventar bem, nem solucionar bem. A genialidade, essa genialidade, é uma burrice pegada. A genialidade verdadeira – fixa isto como se fosse (e é mesmo) a mais importante lição que algum dia recebeste – é viver bem. A genialidade é saber viver. Isso sim: é genial. E, se não sabes viver, por mais obras-primas que cries e mais invenções que descubras, não passas de um burro, um jumento – e aqueles nomes lindos que já te chamei há pouco. És isso tudo. Não passas de isso tudo se não sabes viver e ser feliz por dentro do viver. E são a mesma coisa: viver implica ser feliz por dentro do viver. Porque viver é ser feliz. O resto é vivar, vivir, vovir, vuvur, vuvir e mais o catano que lhe quiseres chamares. Tudo o que não seja viver com felicidade não é, sequer, viver. Manda as obras-primas para o raio que as parta. E aprende a ser genial como o Fernando que foi pessoa e não como o Fernando que se chamava Pessoa. Ser pessoa custa muito mais do que ser génio. Ser pessoa – e viver como pessoa – é muito mais genial do que qualquer livro ou pensamento que possas criar. Ser pessoa é difícil comó caneco. E tu és asno comó caneco se ainda não o entendeste. Seu. 
Aprende sem perderes nem mais um segundo, nem mais um respirar. Aprende já: não se derrota a matemática. Não se derrota o que só tem de ser, o que nunca vai deixar de ser. Não se derrota o que é – e que, porque ainda não aprendeste o que acabei de te dizer, te impede de te seres o que és. O grande segredo da felicidade não é – como os pseudo-génios da infelicidade defendiam e defendem – não pensar. O grande segredo da felicidade é dis-pensar. Dispensar o que é dispensável: o que nasceu para ser dispensável. Só quem dispensa o que tem de ser dispensável é que é feliz. E só é capaz de dispensar quem sabe pensar. Pensar a sério. Só os génios dispensam. Qualquer burro é capaz de pensar. Mas dispensar está reservado a uma elite de predestinados. A uma elite de felicinados: de alienados de felicidade. A vida é para ser vivida. A vida é, mais do que todas as bujardas que os filósofos tristes (os tristes filósofos) escrevem sobre ela, uma bênção, uma danada de uma felicidade. Uma bênção que te devia deixar aos saltos só por teres o privilégio de aqui estares: a vivê-la, a sê-la, a degustá-la. Estar vivo é o único motivo de que precisas para viver. E não entender isso é de uma burrice que eu nem sequer entendo. Seu, seu, seu. Seu. 
Dispensa o que não tem solução. A matemática é a mais social das ciências: a mais humana das fórmulas filosóficas. A matemática ensina-te que há verdades universais. Ensina-te que há factos objectivos: factos que são e que nada pode fazer com que deixem de ser. E o grande segredo da felicidade é perceber que, se nada podes fazer para mudar alguns factos, nada deves fazer para tentar mudar alguns factos. O grande segredo da felicidade é concentrares-te naquilo que podes mudar. E dispensar perder um milésimo de segundo que seja naquilo que não podes mudar. Sabes que espetar uma faca na pele dói – e por isso não espetas. Então porque é que - mesmo sabendo, tantas vezes, que dizeres ou fazeres ou escolheres um determinado caminho te dói - continuas a dizer e a fazer e a escolher esse determinado caminho? Diz comigo: “eu sou burro”. Outra vez: “eu sou burro. Eu só posso ser burro sempre que penso que não dispenso. E que posso ser feliz se não dispenso aquilo que tenho de dispensar”. De novo: “eu sou burro”. Só mais uma: “eu sou burro. Burro” Seu, seu, seu. Seu. 
Para fechar esta trampa destas palavras (porque tenho muito que viver e ser feliz e não quero perder mais tempo contigo), assimila isto: acreditares que alguém que passou os seus dias infeliz é um génio do entendimento da vida é como acreditares que é um génio das letras alguém que não sabe escrever. Ou que é um génio dos números alguém que não sabe contar. Acreditares que um desgraçado que passou a vida a sofrer é um génio e sabe mesmo ensinar-te o que é viver é estúpido, é palerma, é imbecil. E é sobretudo a prova de que estás, na verdade, ao mesmo nível dele. O que talvez explique o porquê de preferires chamar-lhe génio. Seu burro." 

Obrigada, Pedro. É isso.

Wednesday, May 16, 2012

A propósito de uma lamentação ao telefone

Não me falem de amor, estou cansada de ouvir, falar, escrever, procurar, respirar e de querer amor. O amor deixa-me exausta, especialmente quando não está lá. 
Esqueçam o amor, esqueçam o que é, como faz doer, e do bem que sabe essa dor. Esqueçam essa comichão que vos faz arrancar a pele e, mesmo em sangue, alivia. Parem de desejar que vos troquem a água, o pão, a cama, o sangue por uma gota de amor que se dilui em cinco minutos num gin tónico. Deixem de o procurar, ele não está "ao virar da esquina" (que absurdo isso é), ele não está "mesmo à frente dos nossos olhos", nem atrás da porta, nem do outro lado da janela, nem debaixo da cama e muito menos dentro dela. Irrita-me essa incompetência sentimental que desespera pessoas a "procurar o amor", essa ignorância que os faz acreditar que o vão encontrar "quando menos estiverem à espera." Quem pensa assim, não merece o amor, não é digno de o sentir, ainda menos de ser o objecto desse sentimento. Despedia-os a todos desse cargo, retirava-lhe à séria a capacidade emocional, e aí iam ver o que era bom para a tosse. Agora choras com vontade, agora que não consegues sentir. 
Sentir é uma opção, uma pré disposição, uma abertura, um sorrir da alma, um piscar de olho à vida, um atirar-se num mar bravo sem prancha, um saltar de penhasco sem pára-quedas, um andar descalço na rua, um dançar sem roupa à janela, um sorrir quando perceber nos observam, um dar a mão a quem nos procura, um chupar um limão azedo sem pestanejar. É tudo isso e mais. O amor está dentro de nós. Somos nós que puxamos o amor quando altruistamente o resolvermos dar, o amor é dar, dar, dar. Raramente receber. Mas dar na mesma. Não o procurem, por amor de deus, se não está dentro de vocês, se não está na pele, na linfa, no sangue, no estômago, nos pulmões, nos músculos, no esqueleto, na cabeça e no peito, em todos os momentos. 
Vão ser frustrados para o raio que vos parta que eu não tenho comiseração nenhuma por quem não ama. Não tenho pachorra para essa conversa da treta. Não me macem mais com isto.
You get what you give.

Façam o favor de ir aprender esta lição e, já que aqui é claramente inútil, apliquem-na na próxima encarnação. Voltamos a falar nessa altura, quando todos formos gatos.


Monday, May 14, 2012

Antes, pensar

As más coisas ditas não se podem desdizer. Ficam ditas. São inesquecíveis. 

É o MEC que diz, e sou eu que assino por baixo. As coisas más, sejam sentidas, ou fruto de leituras fracas, ficam incrustadas na pele em forma mágoa. E não se consegue despir a pele. Vai-se acumulando dela várias camadas, umas em cima das outras. Pode-se relativizar, fazer o exercício de tentar "esquecer", aceitar o pedido de desculpas, compreender o que o justificou, whatever, mas não há volta atrás. Fica lá. Para um dia vir ao de cima, saltando, como uma tampa mal fechada.

Não há nada como o vazio deste tipo de decepção. 
Ponham lá para dentro o que bem entenderem, este vazio é irreenchível. 

Deixem o egoísmo, o hedonismo, o sensoralismo fácil e a gula de lado, só por um bocadinho, e usem a massa cinzenta que Darwin vos deu antes de dizer ou fazer merda. Pode saber bem atingir quem se tem muita vontade, ou quem está mesmo ali à mão como saco de areia, mas depois vai ser tarde.

E depois?



Friday, May 11, 2012

Segredos

Somos tão iguais que mete medo. Às vezes, a maior parte delas, comunicamos em línguas diferentes. Dialectos que aprendemos nas nossas tão antagónicas origens. 

I'd like to show you my world. For you to see how I feel.

Assusta-me que não tenhamos nada para descobrir um do outro. Que por me ver ao espelho, em cada vez que te olho, que já saiba o que fizeste, o que queres dizer e aquilo que realmente os teus lábios te permitem.


I wonder, if I ever let you down. Did you keep on moving.

Preocupa-me que não te irrites, que não te salte a tampa de vez em quando. Invisto com pequenas provocações que te podiam exaltar, mas sempre encontras um caminho para contornar o assunto, e com um sorriso, sub-repticiamente mudas o tema ou terminas o anterior com uma qualquer correcta politiquice.

Silence is not the way. We need to talk about it.


É redundante querer saber mais de ti. Não vejo como, agora que já sei quase tudo. Mas há expressões que ainda não sei inteiramente decifrar. Tens esse ar de menino bem comportado – descobri que só por grande ingenuidade poderia eu pensar que seria igual em todas as circunstâncias - que raramente consegue esconder coisas tão moldáveis como a dúvida, a confusão, a emoção.

You better slow down. Don't you dance so fast. Time is short. This music won't last.

Porque raios disfarçamos nós a emoção? Deve ser dos espectáculos mais avassaladores admirar a emoção nos olhos e gestos de outra pessoa, ainda mais se provocada por nós.

Don't stop moving, you must keep on going. Don't you stop believing, you should go on dreaming.

Mas a terminar, e enquanto te acompanhava ao teu carro, do nada, contaste-me um segredo. Sem consequências, mas antigo e perdurante.

Keep me where the light is.

Sem to pedir. Abriste assim uma porta da tua casa e convidaste-me a entrar. No meio da minha estupefacção, não te consegui devolver a gentileza. Nem podia, os meus segredos serão cremados comigo.
Deste-me a mão e eu aceitei-a. 

With simple words our pain could be gone.

Wednesday, May 9, 2012

Journey

Está na hora de ir. Porque tenho acordado vazia, vasculhado o meu peito e não encontrado lá nada que me mova. Not anymore. Porque olho ao meu redor e as paredes erguem-se nuas. Sempre a mesma metade da cama por desmanchar. 


Isto não sou eu. Não é de todo esta gravidade que me mantém na Terra. 


Já não vou empurrar com a barriga as coisas para amanhã, porque amanhã vai soprar o hoje e desarrumar tudo do sítio. E quando lá chegar ninguém será igual, as vozes vão ser outras, muitas delas irão silenciar-se. Não me posso mais mentir, acreditando que tenho o quer que seja por adquirido. Nada. Nem o sol, nem a água, nem o pão na mesa, nem o tecto sobre a cabeça, nem a família, nem o sangue nem, muito menos, a expectativa de vir a amar alguém. 


Time is now. Eu sinto. Eu sei. Vou chorar por não te ver crescer, meu amor, meu único amor. Vai doer-me quando nos teus olhos eu for uma estranha que já nem entende a tua língua. 

Vou tapar o céu azul, aterrar o rio que envolve a cidade, esconder as pessoas familiares. Vou desfazer-me dos bens, de nada me servem. Vou-me vestir de alma e deixar o corpo a quem o possa dar uso. 

De fora, vou colar-me ao vidro que me separa do que ficou para trás, com a serenidade de ter vivido tudo, tão intensamente quanto pude. E ver que nada mudou, que de nada serviria ter ficado. Vou leve por não ter deixado nada por fazer ou dizer. Já não tenho idade para sentir vergonha. Que o tempo não permite. A vida hoje é o que dela reclamamos. Deixamo-la passar ao lado, agarrando-nos às coisas que nela não suportamos. E depois acaba. E depois? E o resto? Em que momento é que gastámos a nossa energia a estimá-lo? E a brisa morna no rosto? E as calças arregaçadas à beira-mar? E as gargalhadas? E os abraços? E os afectos? As interpretações? 

Vou. Liberta pelo que a impotência me obrigou. 

Não me vou despedir. Vou sair quando ninguém estiver a olhar. Para que haja sempre uma ténue expectativa quando procurarem o meu número num telefone. 

Tentei sempre ser mais, ser melhor. Nem sempre lá cheguei. Mas ficou a intenção e o esforço. Às vezes as emoções trocaram-me as voltas. E investi a custo próprio. Umas vezes ganhei. Muitas vezes perdi. No final, mesmo as derrotas são vitórias. E é assim que guardo toda a história no meu coração. Vou sem rancores ou ressentimentos. Vou despida. Com o peito cheio das coisas boas que tive o privilégio de experienciar. Dos sorrisos das pessoas que o tornaram possível. 

Chegarei disposta a beber do que a vida tiver para me brindar. Vou sem medos. 

Não me vou perder de mim, continuarei a ser a mesma. Numa memória distante de quem a guardar. Vou continuar a apaixonar-me todos os dias. E vou, continuando a acreditar. 
Que um dia, eu sei, vai ser para sempre.